SÃO PAULO - No mesmo mês em que o Copom do Banco Central decide, contra a corrente majoritária de analistas, acelerar a velocidade de alta da Selic, ironicamente a inflação resolve desacelerar seu ímpeto. Desde o início, as decisões do Copom parecem estar fora do lugar. Ele começou o ciclo de aperto na reunião de 16 de abril aplicando uma dose surpreendentemente elevada, de 0,50 ponto, quando os economistas previam um início menos contundente, de 0,25 ponto. Para dissipar o mal-estar, o BC frisou que, com a alta de 11,25% para 11,75%, a parte mais relevante do total do aperto imaginado já estava feita. Se é assim, tudo bem. Um mês depois, teve de engolir a arrogância, já que o processo inflacionário, violento em maio e junho, recomendava aumento de ritmo para 0,75 ponto no segundo Copom do ciclo, dia 4 de junho. Como o BC não tem por hábito admitir erros e assumir suas conseqüências, sustentou a dose de 0,50 ponto, avançando a taxa para 12,25%. Para a terceira reunião, a do dia 23 de julho, antes da qual já surgiam os primeiros indícios de distensão inflacionária, os economistas não esperavam que, com uma reunião de atraso e sem necessidade, o BC fosse apressar o passo. Foi o que fez, subindo a Selic em 0,75 ponto, para 13%. Os índices de inflação divulgados na semana passada confirmaram que ele errou de novo. Então, obviamente, no próximo Copom (10 de setembro) vai voltar ao gradualismo do 0,50 ponto? Como não admite erros, obviamente no Copom de 10 de setembro vai...

Mesmo depois da deflação apurada pela primeira prévia de agosto do IGP-M, o mercado não tem muita dúvida sobre isso. Enquanto não sair dado atestando sem controvérsia o impacto negativo sobre a atividade econômica do ciclo de aperto iniciado em abril, o BC não irá afrouxar as rédeas monetárias. O mercado já encampou como seu o recado transmitido por diretores do BC segundo o qual enquanto o NUCI (nível de utilização da capacidade instalada) da indústria não cair, o aperto continuará sendo regido pelo mantra de que tudo o que for necessário para trazer a inflação de volta à meta será feito enquanto for necessário . Não basta deflação corrente. A indústria tem de pagar o preço da desaceleração.

Um dos analistas que previram, há duas semanas, que os índices de atacado logo acusariam uma deflação, o economista-chefe da SLW Asset, Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, acredita que o IPCA de agosto, projetado hoje por ele em 0,35%, pode recuar para a faixa de 0,20% dependendo do que acontecer com a parte agrícola dos IGPs. Setembro também será mês de índices muito baixos. O IPCA poderá acelerar-se no fim do ano por efeito da sazonalidade. Mas o Copom, no entender de Carlos Thadeu, manterá o ritmo de alta de 0,75 ponto porque a atividade ainda vai demorar para mostrar um arrefecimento . Sem provas cabais da perda de força do consumo, o BC insistirá no aperto. E o mercado futuro de juros da BM & F, o que tem a missão de traçar, com base em tudo o que vê e no que suspeita será feito pelo BC, a curva futura dos juros, irá também ignorar os índices muito baixos de inflação? Não tenho dúvidas de que o mercado vai precificar menos altas de juros e antecipar uma queda para o final de 2009. Vai depender do tamanho do ajuste das commodities , diz o economista da SLW Asset.

A grande questão hoje não é saber se o BC insistirá no arrocho de 0,75 ponto, mas dimensionar o tamanho total do ajuste. Isso dependerá dos efeitos sobre o Brasil da correção das commodities e do desaquecimento global. Na sexta-feira, o dólar chegou a subir 3,5% em relação ao euro. Em relação ao real, valorizou-se 1,06%¨, cotado a R$ 1,6090. O petróleo caiu 4,01%, para US$ 115,20 o barril negociado na Nymex. Na semana a perda foi de 7,9%. E o índice CRB de 19 commodities recuou 3,04% na sexta-feira, 6,88% na semana. Na dúvida sobre o tipo de ajustamento que está ocorrendo no mercado de commodities - se uma mudança para um patamar mais saudável para a economia mundial ou um catastrófico estouro de bolha - os investidores estrangeiros especializados em ganhar dinheiro com o carry trade dólar contra real estão indo embora do país em marcha acelerada. Desde o dia 29 de julho, o desmonte de posições vendidas nos mercados de cupom cambial e dólar futuro da BM & F alcançava US$ 1 bilhão por dia. Mas do dia 6 para o dia 7, a posição despencou de US$ 2,57 bilhões para US$ 385 milhões. No dia 29 estava em US$ 8,5 bilhões. Não é para menos: a alta do dólar de 3,2% apenas nos últimos cinco pregões anulou quase três meses de Selic. Acabou o paraíso do ganho fácil.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.