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Análise: De olho na Selic, BC impõe teto ao dólar

SÃO PAULO - Não é porque a alta do dólar não está produzindo nenhum efeito negativo sobre a inflação que o Banco Central irá permitir nova escalada da moeda. Ontem, quando o dólar atingiu a cotação de R$ 2,330, com valorização de 2,55% sobre o fechamento de sexta-feira, ele interveio e fez o primeiro leilão do ano de venda direta de dólar no mercado à vista.

Valor Online |

Irrigou o sistema num dia de ótimo giro de negócios (quase US$ 3 bilhões) no interbancário, aplacou a avidez dos " comprados " nos pregões de derivativos cambiais da BM & F e evitou que a moeda fechasse acima de R$ 2,30. No final do dia, o preço de encerramento foi de R$ 2,2960, com avanço de 1,05%. O mercado está convencido de que R$ 2,30 demarcam o teto. O piso, de R$ 2,18, foi definido pelo próprio mercado no dia 6.

O BC não só vendeu ontem US$ 349 milhões à vista, por preço (R$ 2,3180) abaixo da cotação de mercado, como anunciou a realização, hoje, de um leilão de linhas comerciais externas. A retomada da ofensiva oficial contra a depreciação cambial se explica pelo fato de que, apesar da ausência de contágio inflacionário do dólar, a possibilidade técnica de repasse do " overshooting " ocorrido no ano passado vai até março. E o BC não quer que nada atrapalhe o início, semana que vem, do ciclo de afrouxamento monetário. Se o câmbio flutuar entre R$ 2,18 e R$ 2,30, poderá, como é consenso no mercado futuro de juros da BM & F, fazer cinco cortes sucessivos de 0,50 ponto na taxa Selic, o primeiro dos quais na quarta-feira da semana que vem.

Não há como o Copom não relaxar a política monetária em face do travamento da indústria, do desemprego e da deflação. É por isso que os juros não sobem no mercado futuro da BM & F nos dias em que o dólar se valoriza. Nas três altas registradas pelo dólar este ano - o avanço de 2,75% no dia 7, o de 2,32% no dia 8 e o 1,05% de ontem - foram ignoradas pelo DI futuro. Ontem a taxa do swap de 360 dias caiu de 11,70% para 11,69%. Como a projeção de IPCA para o mesmo período do boletim Focus recuou de 4,96% para 4,91%, o juro real cedeu a 6,46%, novo recorde de baixa da série histórica.

O ciclo de flexibilização monetária, já sinalizado pela inversão da curva futura de juros, guarda algumas diferenças em relação aos anteriores, segundo relatório da AC Pastore & Associados, consultoria do ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore. Inusitadamente, o ciclo irá se iniciar após uma forte depreciação cambial, que contrariamente ao que ocorria no passado não elevou a inflação. Igualmente novo é que ocorrerá a partir das menores taxas reais de juros observadas nos últimos anos.

O que vem ocorrendo para reduzir o " pass-through " da depreciação cambial? Por que é possível iniciar o ciclo de redução com taxas de juros tão baixas, mesmo depois de uma elevada depreciação do real? Para Pastore, as razões são: a forte desaceleração da economia e a queda dos preços internacionais de commodities, que vem derrubando os preços em dólares de exportações e importações, absorvendo em grande parte o efeito inflacionário da depreciação cambial. Mas o BC tomará cuidado e não irá exagerar na dose porque está em marcha o que Pastore chama de " ciclo de estoques " . Predominantemente concentrado no setor automobilístico, ele propaga seus efeitos sobre a produção de bens intermediários. " Durante um ciclo de estoques a produção transitoriamente declina bem abaixo da demanda, exagerando a percepção do tamanho da desaceleração " , diz o relatório.

Pela ótica do BC, sem que se conheça a dimensão exata do encolhimento do produto, a efetiva ausência de " pass-through " e o impacto fiscal das tentativas do governo de minorar os efeitos da crise sobre a economia, não se pode esperar por corte superior a 0,50 ponto nesta primeira reunião do ano do Copom. As cautelas do BC parecem ser excessivas. Sempre que, como ontem, ocorre uma depreciação cambial, o declínio das commodities que a suscitou é sempre maior do que ela. As commodities tombaram como resultado da piora nas expectativas sobre quando começará a reagir a economia mundial. A queda do barril do petróleo - fechou cotado a US$ 37,59 na Nymex, em retrocesso de 7,94% - correspondeu ao aumento na aversão global a risco expresso no declínio de 2,3934% para 2,3086% no juro dos títulos de 10 anos do Tesouro americano. A uma semana da posse de Barack Obama, os mercados estão céticos em relação aos efeitos do seu pacote de incentivo fiscal. Há muito pessimista em Wall Street sobre a rodada de balanços corporativos trimestrais que está começando nos EUA.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico )

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