SÃO PAULO - As comemorações antecipadas pelo fechamento do acordo que permitirá a aprovação pelo Congresso americano do pacote de resgate de bancos não são um desligamento da realidade. Os investidores sabem que se o plano pode evitar o colapso do capitalismo financeiro globalizado não conseguirá impedir a recessão econômica.

Altas dos ativos de risco e desmonte parcial de posições destinadas a obter mais segurança do que rentabilidade são, contudo, naturais em dias de distensão após contínua e severa onda de perdas.

As celebrações nos mercados globais não foram ontem mais intensas porque, coincidentemente, a divulgação de uma batelada de indicadores ruins sobre o lado real da economia dos EUA não autorizou vôos especulativos mais elevados. Os indicadores reiteram a sensação geral de que os EUA já estão em recessão.

Todos os três índices do dia foram unânimes em alertar para a gravidade dos efeitos da crise financeira sobre a face real da atividade, das vendas e do emprego. As encomendas de bens duráveis às indústrias caíram 4,5% no mês passado em relação a julho, mais que o dobro da expectativa dos economistas. Os pedidos de auxílio-desemprego, aos invés de diminuírem como estava sendo esperado, subiram 32 mil na semana passada, para 493 mil, nível mais alto desde 29 de setembro de 2001. E o epicentro real da crise do subprime, algum sinal de recuperação? Pelo contrário. As vendas de imóveis residenciais novos desmoronaram 11,5% no mês passado. Foram as menores em 17 anos. Se o pacotão conseguir espantar o temor de quebras em cadeia de instituições financeiras, provavelmente o presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, terá de engavetar seu projeto de elevação do juro básico para combater a inflação e fortalecer o dólar. Mesmo saneados, os bancos, submetidos a novas regulamentações destinadas a brecar especulações, ambições e bônus desmedidos, não terão dinheiro suficiente nem disposição para correr riscos de maneira a estimular o crescimento econômico. E os EUA, por seu porte e estrutura econômica, são, mais do que qualquer país capitalista, movidos a crédito.

E o Brasil? Os mercados locais festejaram ontem a possibilidade de adiamento do final dos tempos, nutrindo a esperança de rápida desobstrução das vias por onde escorre o crédito. A Bovespa fechou em alta de 3,98%, o dólar caiu 1,93%, cotado a R$ 1,8220, e os juros recuaram no mercado futuro da BM & F. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, cedeu de 14,82% para 14,72%. De acordo com relato de diretores da área de crédito dos bancos, todas as linhas estão, em graus diversos, sofrendo algum grau de paralisação. Enquanto as linhas de comércio exterior secaram já há dez dias, mesmo simples descontos de duplicata custam a ser aprovados. Torneiras secam até em grandes bancos de varejo. Os analistas que fazem previsões de inflação e juros podem não estar muito bem informados sobre a gravidade da retração do crédito e os efeitos sobre a atividade, mas os oito membros do Copom estão. O Banco Central já pode ter detectado uma tendência ao desaquecimento econômico acima do que seria necessário para promover o retorno do IPCA ao centro da meta de inflação em 2009.

A LCA informou ontem que a maioria dos indicadores coincidentes acompanhados por ela registrou crescimento marginal bastante negativo em agosto, o que fornece fortes sinais de que a produção industrial desacelerou comparativamente a julho. A consultoria estima que a produção industrial de agosto apresente crescimento de 1% sobre agosto de 2007, o que corresponderia a um recuo sobre julho de 1,7%. Dos onze indicares coincidentes acompanhados pela LCA, nove mostram comportamento negativo. Os dados oficiais sobre a atividade da indústria no mês passado serão divulgados pelo IBGE na próxima quinta-feira.

A inflação, por seu turno, já não inspira preocupações capazes de sugerir ao BC a necessidade de insistir no aperto apesar dos sinais de desaceleração da atividade. Divulgada ontem, a terceira quadrissemana de setembro do IPC FIPE veio bem aquém da mediana (0,51%) das expectativas. O índice subiu 0,44%. Dificilmente, o Copom teria a audácia e a autoconfiança necessárias para interromper já em outubro o ciclo de avanço da Selic iniciado em abril. Mas pode nem ter mais espaço para uma alta de 0,50 ponto. Economistas levantaram ontem a hipótese de um avanço de 0,25 ponto, para 14%. A taxa seria mantida nesse patamar na última reunião do ano (10 de dezembro) e começaria a cair já na primeira de 2009.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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