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SÃO PAULO - O pesado contágio da crise externa conseguiu, em menos de um mês, o que a política monetária do Banco Central vinha perseguindo há meses, sem sucesso: neutralizar as pressões inflacionárias que perambulavam livres pelo desbloqueado canal do crédito. O ciclo de alta da Selic, que de abril a setembro elevou a taxa de 11,25% para 13,75%, afetou suavemente apenas o canal das expectativas, enquanto o estouro da bolha de commodities tratava de derrubar os índices de inflação corrente.

O canal do crédito persistia inabalável. Tudo mudou depois que, em meados de setembro, a quebra do Lehman Brothers reduziu a oferta de crédito externo para o Brasil.

Esse evento traumático desencadeou um movimento de valorização do dólar que tornou desastrosas as operações com derivativos feitas por exportadoras. Estes negócios produziram um bola de neve cambial cujo resultado foi uma maxidesvalorização cambial. O terremoto no câmbio e a redução de linhas externas promoveram um empoçamento de liquidez no sistema bancário nacional. Os grandes bancos giram o caixa no overnight, ganham quase 14% sem fazer nada, enquanto os pequenos e médios enfrentam dificuldades em chegar ao fim do dia. Toda a estrutura de crédito interno se alterou em menos de um mês, de tal sorte que, quando há financiamento, ele está mais curto e caro.

Os juros futuros longos refletem o encarecimento da mercadoria escassa chamada dinheiro. O contrato mais negociado no pregão de DI futuro da BM & F fechou sexta-feira a 15,02%. Estava em 14,49% na sexta-feira anterior. Não há pressão de saída de investidor estrangeiro na parte longa da curva de juros. Os fundos externos já desmancharam o carry trade e saíram do país. As pressões agora são de players locais mesmo. Com a alta da taxa informam ao governo que só aceitam alongar a dívida pública mediante a concessão de um prêmio. Quando o canal de crédito permanecia insensível aos apertos monetários do BC, as taxas longas teimavam em cair em meio a uma demanda aquecida. Hoje, o Copom não precisa mais subir a Selic para provocar esse efeito.

A taxa longa já está muito alta para um mercado de consumo que se retrai. As empresas adiam planos de investimento e emitem os primeiros sinais que leva o consumidor a protelar o crediário: suspendem a contratação de novos funcionários. O espectro da demanda em ebulição denunciado nas últimas atas do Copom evaporou-se em meio à crise. As commodities agrícolas e metálicas e o petróleo não param de cair. A pressão inflacionária vista pela porção mais conservadora de analistas sob a forma de gastos públicos exorbitantes também se dissipou. Quanto mais o dólar subir, mais o governo brasileiro ganhará dinheiro. A única fonte de inquietação inflacionária vem da maxidesvalorização cambial. Na sexta-feira o dólar fechou cotado a R$ 2,3140, em alta de 5,27%. Na semana, subiu 13,10% e, no mês, acumulou alta de 21,53%. Como repassar a alta do dólar em meio a uma desaceleração econômica cujo tamanho ainda é desconhecido?
Esse impasse de empresas e consumidores persistirá até o momento em que as forças produtivas sentirem que a crise esmorece. Até lá, o BC precisa administrar a taxa de câmbio para evitar uma depreciação ainda mais danosa. O lado bom é que a disparada do dólar exala um forte odor especulativo. A artificialidade é tremenda e, por isso, pode ser revertida logo. Não há uma crise cambial no sentido clássico. Não há um ataque especulativo contra o real, nem um estrangulamento das contas externas. Sintomaticamente, o BC desistiu de fazer os seus leilões de linhas de crédito externo. Do vasto arsenal à disposição da autoridade em épocas de crise cambial - as mais radicais são o controle à entrada e saída de dólares, a centralização de todas as operações envolvendo a troca de moeda, a imposição de liquidação compulsória de posições especulativas, e, em conjunto com outras entidades reguladoras, a determinação do fechamento coercitivo de pregões derivativos, além da imposição de penalidades a instituições financeiras que alavancam operações em mercados de balcão -, o BC vinha usando somente três: venda de contratos de swaps cambiais, venda direta de dólar spot e venda compromissada (com recompra futura).

Esta última equivalia a um financiamento oficial em substituição aos ACCs que os bancos alegam ter sumido da praça. O BC desistiu desta terceira modalidade de fornecimento de liquidez. Por quê? Por falta de interessados em adquirir as linhas. Nos dias 19 e 26 de setembro vendeu US$ 500 milhões. E no dia 7 ofereceu US$ 1 bilhão e só vendeu US$ 700 milhões. E não voltou mais ao mercado. Mas os bancos estrangeiros não cortaram a oferta? O economista Sidnei Nehme, diretor da NGO Câmbio, acredita que não está faltando crédito externo à exportação. Na verdade, os bancos podem estar se recusando " a contratar câmbios de exportação pelo fato de o preço da moeda estar muito caro " . De acordo com Nehme, a análise mais detalhada do fluxo cambial de setembro mostra que, do total das exportações contratadas, 27,30% obtiveram ACC, percentual acima da média do ano, de 23,89%, e superior aos meses de junho, julho e agosto. " O problema do mercado de câmbio à vista não é falta de liquidez, nem de divisas, nem de linhas externas, mas sim de taxa cambial, hoje excessivamente alta " , diz o economista.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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