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Análise: Crise? Juros e dólar desdenham contágio

SÃO PAULO - Risco sistêmico? Quebradeira em cascata? Apesar do violento aumento da aversão global ao risco, os dois mercados capazes de acoplar o Brasil à crise americana exibiram ontem comportamentos irrepreensíveis. O dólar só subiu 1,51%, cotado a R$ 1,8080.

Valor Online |

E o juro futuro caiu. A taxa básica privada - piso do custo do crédito - recuou de 14,58% para 14,56%. Além de desdenhar a crise, enviam um recado muito claro ao Banco Central: o declínio das commodities terá um impacto positivo sobre a inflação mais vigoroso que o negativo produzido pela depreciação cambial. Desde o piso da baixa (R$ 1,5590, registrado no dia 1º de agosto) até ontem, o dólar já subiu 15,97%, enquanto o índice CRB de 19 commodities tombou 25,64% desde o teto da alta, atingido em 2 de julho.

A ojeriza ao risco corta o crédito e ajuda a desacelerar as economias. Por um lado e por outro, o Copom já pode arquivar seus planos de elevação da Selic. Taxa de 13,75% já será mais do que suficiente para dar conta de pressões, cada vez mais suaves, vindas da área de preço. Deveria, como o BC chinês, estar preocupado com o esfriamento da economia. O Banco do Povo da China diminuiu a taxa oficial usada na concessão de empréstimos aos bancos de 7,47% para 7,20%. Trata-se da primeira baixa de juro desde fevereiro de 2002. Além disso, o BC chinês cortou o compulsório bancário exigido dos pequenos bancos em um ponto porcentual.

Crescem os sinais de desaquecimento da economia brasileira e de arrefecimento das pressões inflacionárias. No primeiro caso, a FGV informou ontem que o Sinalizador da Produção Industrial (SPI) de São Paulo caiu 2% no mês passado, depois de um crescimento de 0,1% em julho. O indicador não é isolado. Ao contrário, soma-se a outros que também revelam desaceleração da atividade, entre os quais as vendas de papelão ondulado, de veículos pela Fenabrave e de produção pela Anfavea. Diminuiu igualmente o fluxo de veículos pelas rodovias que cobram pedágio. E a inflação? Pela pesquisa Focus, feita pelo BC com uma base de cem informantes, a projeção de IPCA para 2008 recuou pela sétima semana seguida, de 6,27% para 6,26%. E, após estabilidade por oito semanas, a expectativa de índice para o ano que vem caiu abaixo de 5%. Está agora em 4,99%.

Por estas razões, os juros curtos negociados no mercado futuro da BM & F passaram ao largo das turbulências americanas. Os CDIs previstos para outubro e novembro fecharam estáveis em 13,61% e 13,64%, respectivamente. A taxa para dezembro caiu 0,01 ponto, a 13,82%, O CDI negociado para a virada do ano perdeu 0,04 ponto, para 13,99%. O contrato mais negociado, com vencimento em 2010, cedeu de 14,64% para 14,63%. As taxas longas - reduto cativo dos " hedge funds " especializados em " carry trade " - subiram como sintoma do desmonte dessas posições. O CDI para janeiro de 2011 avançou de 14,38% para 14,45%. Mas esse desarme de posição não foi nem expressivo, nem preocupante, já que, no conjunto, o DI futuro movimentou somente 572 mil contratos.

O Federal Reserve (Fed) pode hoje trilhar a via aberta ontem pelo BC da China. Até sexta-feira, o consenso era de que, em sua reunião ordinária marcada para hoje, o Fed iria manter o juro básico em 2%. Depois de o colapso do Lehman Brothers levantar o medo de um efeito dominó entre instituições menores, o mercado secundário de títulos do Tesouro americano passou a embutir a expectativa de um recuo da taxa para 1,75%. Isso não é improvável. Nesse final de semana ficou bem clara a posição do Fed: emprestar dinheiro grosso e a juro baixo para quem quiser sanear a carteira e deixar quebrar quem espera um salvamento indolor. Ontem ele injetou US$ 70 bilhões para trazer a taxa do empréstimo bancário do patamar de pânico de 5,25% para mais perto da meta de 2%. E irá ampliar em volume e periodicidade o socorro emergencial lastreado em títulos. Mas parece não mais disposto a salvar instituições da falência. Essa nova disposição - cujo efeito-demonstração foi dado na caso Lehman Brothers - provocou duas reações conectadas: venda de ativos líquidos mundo afora para cobertura de posições problemáticas e pagamento de dívida e aplicação do caixa em títulos do Tesouro americano.

Os ativos prediletos para a venda foram os que mais engordaram especulativamente ao longo do ano. O primeiro deles são os contratos futuros de petróleo. Tanto que ontem o barril tombou 5,4% na Nymex, para US$ 95,71. Na ponta oposta, a da compra, os juros dos " treasuries " despencaram por causa do excesso de procura. A taxa do papel de dois anos recuou de 2,2108% para 1,7019%. O juro do título com resgate em cinco anos cedeu de 2,9492% para 2,5276%.

"(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)"

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