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Análise: Crise amarra Fed e incita especulação

SÃO PAULO - Os canais interligados dos mercados globais voltaram a conspirar contra a estabilidade da economia brasileira. Prestes a completar um ano, a crise de crédito americana sofreu sensível degradação, afastando inteiramente a possibilidade de o Federal Reserve (Fed) apertar a política monetária. A necessidade de o Fed manter o juro baixo para impedir a quebra de instituições financeiras era a notícia que, ao debilitar o dólar, estavam esperando os especuladores para puxar o preço do petróleo para o alvo mais imediato de US$ 150,00. E isso atiça a brasa, que ameaçava esfriar, da inflação brasileira às vésperas de crucial reunião do Copom do Banco Central.

Valor Online |

Os hedge funds especializados em contratos futuros de WTI negociados na Nymex já estavam desistindo da bolha do petróleo - o barril tombou para até US$ 136,04 no dia 8 por causa da percepção de que, em desaquecimento, o mundo iria precisar de menos combustível fóssil - quando receberam dois presentes. O primeiro, os testes com mísseis feitos pelo Irã, reavivaram a tensão geopolítica na região coalhada de produtores. O segundo foi a boataria envolvendo instituições financeiras americanas. Os especuladores rapidamente detonaram o barril, cuja cotação bateu em US$ 147,27. Fechou a US$ 145,08, em alta de 2,42%.

O rumor mais preocupante foi o que considerava calamitosa a situação das duas gigantes do crédito imobiliário americano, a Freddie Mac e a Fannie Mae. Dedicadas a comprar hipotecas encalhadas em bancos, liberando espaço para novas incursões temerárias, as duas estariam em colapso. E arrastariam bancos de investimentos que ainda não se desfizeram dos seus subprimes. Na tarde da sexta-feira, o Fed acalmou o mercado reafirmando o óbvio, o que está previsto nos estatutos das duas empresas, que elas poderão acessar as linhas de redescontos. O fato é que o Fed está de mãos atadas, não pode subir o juro e fortalecer o dólar enquanto a ameaça de falência continuar rondando as firmas de Wall Street.

Resta ao presidente do Fed, Ben Bernanke, exercitar a retórica para equilibrar as forças no mercado de câmbio internacional. Esta semana continua a maratona de discursos. Em apenas nove dias, a figura de Bernanke está sendo exposta em quatro eventos distintos. Na semana passada, fez dois pronunciamentos. E, nesta, prestará seu depoimento semestral ao Congresso. Apresenta amanhã, ao Comitê Bancário do Senado, o relatório semestral de política monetária. E, no dia seguinte, o mesmo documento, com novas projeções econômicas trimestrais dos diretores e presidentes regionais, será apresentado ao Comitê de Serviços Financeiros da Câmara. Os eventos desta semana são mais relevantes que os da passada. Mas não se sabe se o excesso de exposição produz melhores resultados de convencimento ou se atua para desgastar a imagem de Bernanke e minar sua mensagem.

Apesar da nova arrancada do petróleo, os juros fecharam em queda no mercado futuro da BM & F. A taxa para janeiro de 2010 cedeu de 15,15% para 15,09%. O entendimento é o de que o Copom tende a preservar em sua reunião marcada para a semana que vem (dia 23) o ritmo de 0,50 ponto de alta da Selic com o qual inaugurou, em abril, o atual ciclo de aperto monetário. Os mais recentes índices de inflação estão vindo menos excitados. Depois do IPCA abaixo das expectativas, divulgado na quinta-feira, na sexta foram anunciados dois índices sem surpresas desagradáveis. O primeiro decêndio de julho do IGP-M desacelerou de 1,98% para 1,55%. E a primeira prévia do IPC FIPE caiu de 0,96% para 0,77%. Que o IPCA acumulado este ano poderá estourar o teto de 6,5% da banda de flutuação do sistema de metas, é uma hipótese tão palpável que não choca a mais ninguém. Que o BC quer trazer a inflação de volta para os 4,5% já no ano que vem, é outro sobre o qual não há controvérsia. Mas não há muito mais o que fazer além disso.

O fato é que a trajetória futura da inflação se alicerça cada vez mais sobre o imponderável cabendo ao BC fazer o seu trabalho de frear a demanda e impedir que os choques primários dos preços se transformem em um processo inflacionário descontrolado , diz Luis Otavio de Souza Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil. Para tanto, basta o aperto de 0,50 ponto por reunião do Copom. Por quanto tempo? Segundo estudo da MCM Consultoria, caso o preço das commodities sustente o ritmo de crescimento de 2008 pelos próximos anos, a inflação não voltará para níveis abaixo de 5% nem ao final de 2010, mesmo se o BC elevar os juros para 15% até dezembro de 2008 e os mantiver inalterados até outubro de 2009. Isso daria um cavalo-de-pau na economia. Não vale a pena. O gradualismo atual é o mais aconselhável.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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