Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Análise: Corte maior da Selic não surpreenderá

SÃO PAULO - Apesar dos repiques inflacionários recentes, se o Copom do Banco Central vier em sua reunião de março a decidir corte diferente do consenso estabelecido em torno de mais uma baixa de um ponto percentual na taxa Selic será no sentido de ampliar mais ainda o afrouxamento monetário. O mercado futuro de juros ignora os índices de inflação acima das expectativas divulgados ultimamente.

Valor Online |

Na sexta-feira, o IGP-10 de fevereiro não tolheu a rota declinante dos CDIs futuros. O indicador avançou 0,54%, quando a mediana das previsões apontava alta de 0,32%. Mesmo assim os juros futuros caíram bem. O swap de 360 dias recuou de 11,20% para 11,05%. A taxa cairá a um dígito se o pregão considerar possível a adoção pelo Copom de uma solução nos moldes chilenos.

Notoriamente superconservador como o BC brasileiro, o chileno reduziu a taxa básica na semana passada em 2,5 pontos, quando os analistas esperavam mais um corte de um ponto. Como o BC brasileiro, o chileno demorou a iniciar o relaxamento da política monetária. A primeira baixa foi feita, como no Brasil, em janeiro, e foi, como aqui, de um ponto. Mas há diferenças (enormes) com o Chile: lá as reuniões são mais frequentes do que no Brasil; o juro básico iniciou a queda quando estava em 8,25% e não em 13,75% como aqui; em dois meses a taxa chilena tombou de 8,25% para 4,75%, uma diminuição de 42,4%. Se tal dimensão de afrouxamento fosse aplicada pelo nosso BC, a Selic cairia 5,83 pontos, para 7,92%. " Claramente, o banco central chileno optou por um ciclo de cortes acelerado, temeroso dos impactos da significativa deterioração da atividade econômica global e das incertezas com relação à solução da crise dos mercados financeiros " , diz a economista-chefe do Banco Fibra, Maristella Ansanelli.

O BC chileno apressa a descida do juro apesar de a inflação se mostrar mais vigorosa que a daqui. A taxa beirou os 10% no último trimestre de 2008 e, embora esteja cedendo rapidamente por causa do enfraquecimento econômico, ainda se encontra em 6,3%, muito acima da meta de longo prazo de 3% ao ano e até mesmo do teto da banda, que é 4%.

Dólar cai 2,33% no mês - Quando assumem posições " compradas " ou " vendidas " de uma moeda contra outra, os investidores agem orquestradamente obedecendo a uma lógica implícita. As ofensivas diárias destinadas a viabilizar o lucro de sua posição não se esgotam em si mesmas. São apenas o alvo secundário. A mira principal é assestada contra o BC guardião daquela moeda específica. A intenção é fazer com que desista de defender uma trincheira conhecida de todos.

No caso brasileiro, o câmbio flutuante não fornece nenhuma. Mesmo quando o dólar superou os R$ 2,53 no começo de dezembro, o BC brasileiro não deixou entrever a possibilidade de estar defendendo o degrau de R$ 2,55. Apesar das elevadas posições " compradas " assumidas pelos " hedge funds " nos últimos seis meses nos pregões de derivativos cambiais da BM & F nunca houve um ataque especulativo contra o real digno do nome, como o deflagrado recentemente contra o rublo russo. Nem precisava.

A própria dinâmica da crise externa tratou de tornar hiperlucrativas as posições compradas em dólar contra o real. Os fundos externos passaram de " vendidos " liquidamente em cupom cambial e dólar futuro para " comprados " no iníco de setembro, quando o dólar estava cotado a R$ 1,7220. Recorde-se que foi naquela época que a gestão Henry Paulson começava a piscar desvairadamente. A profecia se consumou quando deliberadamente autorizou a quebra do Lehman Brothers, no dia 15 de setembro, para servir de " lição " ao mercado. Serviu apenas para aprofundar a crise, tornando-a a pior em oitenta anos. Os " hedge funds " agradeceram e ampliaram as apostas compradas. O lucro, até o auge dos R$ 2,53, foi considerável, de 46,92%.

Sem contrapor-se aos fundos, o BC injetou liquidez no sistema e vendeu diretamente de setembro até agora pouco mais de US$ 14 bilhões, uma quantia irrisória face ao caminhão de dólares despejados pelos bancos centrais de países desenvolvidos. E agora o dólar começa a voltar. E sinaliza a busca do patamar de R$ 2,00. Na sexta-feira, a moeda fechou cotada a R$ 2,2640, em queda de 1,04%. A desvalorização acumulada no mês alcança 2,33%. Depois de seis meses na posição correta, os " hedge funds " estão na posição errada. Precisam sair dela. Mas se a reversão for muito abrupta e atabalhoada os lucros acumulados no período podem definhar. Por isso, eles optam por uma trajetória errática de fuga, sustentando posições em torno dos US$ 10 bilhões.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

Leia tudo sobre: home

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG