Publicidade
Publicidade - Super banner
enhanced by Google
 

Análise: Copom irá encurtar aperto monetário

SÃO PAULO - O mercado monetário não esperou a ata da reunião de anteontem do Copom para fazer apostas inovadoras sobre o futuro. A primeira: o aperto monetário será mais curto do que o imaginado antes da reunião. A segunda: a economia já está emitindo os sinais de desaquecimento esperados pelo Banco Central. A terceira: a disparada do dólar será, do ponto de vista das pressões exercidas sobre a inflação, anulada pela queda das commodities, ou seja, o Copom não precisará se preocupar com ela. A quarta: o Copom já acredita que o IPCA de 2009 irá, com as medidas já tomadas e sinalizadas, convergir para o centro de 4,5% da meta. Essas conclusões não foram tiradas da decisão em si, amplamente aguardada, de elevar a Selic de 13% para 13,75%, mas do escore divergente da reunião.

Valor Online |

Dos oito membros do Comitê, cinco votaram pelo 0,75 ponto e três por alta mais suave, de 0,50 ponto. O mercado sabe que esse placar não foi firmado ao acaso. Cinco a três torna a divergência séria e crível, bem mais grave que um 6 a dois ou um inofensivo e inócuo 7 a 1. No Fed, o dirigente de Dallas vem votando isoladamente por uma alta há várias reuniões do Fomc, e nada acontece, pois se trata de um dissenso genuíno, que não embute nenhum recado. No Copom, não. Foi lançado um eloqüente sinal de mudança, carregado de significados que o mercado trata de explicitar sob a forma de vultosas e rentáveis operações. Ontem, o volume do DI futuro da BM & F quase bateu no um milhão de contratos.

Coerente com os recados do Copom, a taxa que mais responde à rota da política monetária, referente à virada de 2009 para 2010, caiu ontem de 14,71% para 14,64%. As apostas de Selic para dezembro começam em taxa de 14,25% e terminam em 14,75%. Desapareceu a corrente que acreditava em juro de 15% ou mais. Para o economista-chefe da Gradual Corretora, Pedro Paulo B. da Silveira, após alta de 0,50 ponto no Copom do dia 29 de outubro, o ciclo de aperto monetário iniciado em 16 de abril será encerrado com avanço de 0,25 ponto no encontro final de 2008, em 10 de dezembro. Ou seja, a Selic fecharia o ano em 14,50% e não subiria mais em 2009. O arrocho acumulado seria de 3,25 pontos percentuais.

A consultoria LCA acredita que os pontos que estavam deixando o BC desconfortável se enfraqueceram. Indicadores antecedentes de atividade sugerem que a economia está diminuindo seu ritmo de crescimento, num contexto em que a expansão dos investimentos continua a superar largamente o crescimento do consumo. Isso prenuncia uma descompressão do hiato do produto, o que soa como música alegre aos ouvidos do Copom. A inflação doméstica deverá continuar a mostrar resultados mais tranqüilizadores, consistentes com a trajetória das metas, na esteira da descompressão adicional dos preços internacionais das commodities, da desaceleração do nível de atividade e dos efeitos defasados dos aumentos de juros já feitos pelo BC. E, finalmente, a desvalorização cambial doméstica não deverá se intensificar ou se estender por um período muito significativo.

O BC não fez ontem o seu leilão diário de compra de dólar. Há quase um ano comprava todos os dias para aumentar as reservas e inibir a queda do dólar. Não fazia mesmo sentido ele persistir adquirindo num momento em que o mercado mudou. Os especuladores globais estão buscando hoje proteção e lucratividade no dólar. Furadas as bolhas de commodities e petróleo, ensaiam agora a formação de uma bolha do dólar. No Brasil, a valorização da moeda é impressionante: a menor cotação do ano foi atingida em 4 de agosto, com o dólar a R$ 1,5620. De lá até ontem - apenas 28 dias úteis -, a moeda saltou 16,39%. Ontem ela fechou a R$ 1,8180, com avanço de 1,67%.

A retirada de cena do BC é coerente e lógica. Já deveria ter suspendido os leilões no início da semana. Ao comprar, ele sacramentava o movimento de alta do mercado. A taxa de corte correspondia a uma chancela oficial. Como continuava comprando apesar da alta, passava a impressão de acreditar na consistência e solidez do movimento. Ou seja, estaria comprando agora a um preço mais baixo porque, depois, a cotação estaria mais salgada. Estava, indiretamente, como se precisassem, dando munição aos hedge funds comprados em derivativos cambiais na BM & F. As posições subiram de US$ 893 milhões no dia 9 para US$ 2,91 bilhões no dia 10. As posições podem até ter dobrado ontem porque, no pior momento do dia, o dólar deu um arranque de 2,85%. Pura especulação contra o real. Ao interromper a compra, o BC sinaliza que considera o movimento de alta efêmero, logo o preço estará de novo adequado. Com isso, tira oxigênio da ofensiva especulativa.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

Leia tudo sobre: home

Notícias Relacionadas


Mais destaques

Destaques da home iG