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Análise: Contágio se acentua e mercado foca BC

SÃO PAULO - A fase mais complicada do plano de salvamento do sistema financeiro americano começa hoje. Se a aprovação do pacote pelo Congresso foi trabalhosa, confusa e nervosa, a etapa operacional do resgate das carteiras apodrecidas promete fortes emoções.

Valor Online |

E, nos mercados, expectativas tensas são sinônimo de volatilidade frenética. Se, nos EUA, ensaia-se o começo do fim do resto da crise, na Europa ela parece ter alcançado o auge, enquanto no Brasil acentua-se o contágio externo. Estes serão os três focos da semana: a forma como os EUA farão o resgate e repartirão as perdas, os esforços europeus para mitigar a crise e as medidas adicionais que o Banco Central brasileiro poderá tomar para amortecer impactos vindos de fora.

Se o BC está agindo, por meio do instrumento monetário conhecido como compulsório bancário, para distribuir melhor os recursos que, por contágio da crise bancária americana, já não fluem mais desimpedidamente pelos canais do crédito como antes, é porque não fará uso, com os mesmos propósitos, do instrumento monetário chamado taxa básica de juros. Será? O bom, para os tesoureiros viciados em volatilidade, é que o BC não precisa decidir agora se irá respeitar a sinalização feita na última ata do Copom e no Relatório de Inflação referente ao terceiro trimestre de diminuição do ritmo de alta da Selic para 0,50 ponto, se irá interromper o ciclo de aperto iniciado em abril ou se a contração do crédito, mais intensa do que se imaginava, exigirá um corte imediato do custo do dinheiro. Não precisará decidir agora porque a reunião do Copom está marcada só para o dia 29, daqui a 17 dias úteis.

Até o dia 29 de outubro, o BC ganhará um tempo precioso. Poderá avaliar os efeitos do plano de salvamento americano sobre o mundo financeiro global e sobre a face real da economia mundial. E, mais importante, poderá avaliar os estragos que a tormenta produziu nas fábricas e lojas brasileiras. Se a decisão do Copom tivesse sido tomada na sexta-feira passada, provavelmente teria optado por baixar a taxa imediatamente.

O clima era de velório: suspensão de financiamentos ao consumo, empresas sem caixa e sem crédito para honrar compromissos enquanto bancos de pequeno porte rezavam para os grandes não resistirem a determinação do BC de comprar suas carteiras de crédito. Determinação? Exato. Os bancões, pelo que se comentava nas mesas, não entenderam a medida do BC de permitir que até R$ 23,5 bilhões do compulsório a prazo sejam utilizados na aquisição da carteira de crédito dos pequenos como uma opção de adesão voluntária, a critério de cada banco. Eles tinham de comprar e ponto final.

O fato é que o BC age quando precisa agir. No dia 29 terá de pesar na balança da política monetária, de um lado, sugerindo a baixa do juro, o grau de empoçamento da liquidez doméstica, as restrições relativas à concessão de crédito nas linhas ao consumidor adotadas espontaneamente pelo mercado e as perspectivas de desaceleração mais forte da economia do que está sendo admitida pelo Ministério da Fazenda. De outro, pedindo a manutenção do arrocho, a valorização do dólar e as tentativas, se bem ou malsucedidas, de repasse aos preços. Como, nos documentos oficiais recentes, os preços das commodities não foram considerados decisivos na escalada da montanha monetária, o pesado declínio recente não deveria, por coerência, merecer maiores atenções.

O mercado de câmbio sentiu, sexta-feira, a carga da advertência de tesoureiros de que o BC age quando precisa. O câmbio adora regrinhas pré-estabelecidas e seguidas à risca, pois pode, desta forma, programar o ganho intraday mais confortavelmente. Como o BC fez leilões de venda compromissada de dólares apenas nas duas sextas-feiras anteriores - dias 19 e 26, totalizando oferta de US$ 1 bilhão -, os operadores apostavam que ele iria voltar a vender linhas externas na sexta-feira passada. Erraram. Ele não detectou a necessidade de suprir liquidez. A volatilidade - a moeda oscilou entre R$ 1,9890 e R$ 2,0780 - foi entendida como mera reação automática - e sem maiores conseqüências - do sobe-e-desce do dólar frente ao euro.

O mercado monetário vem trafegando na mão oposta a do dólar e da Bolsa. O DI futuro parece já ter decidido quais fatores tem maior peso na balança monetária. Do último Copom, realizado no dia 10 de setembro até sexta-feira, o juro do contrato mais negociado na BM & F, com vencimento em janeiro de 2010, cedeu de 14,71% para 14,49%. Não se trata, é claro, de aposta fechada. O quadro externo, o comportamento do dólar e os indicadores domésticos decidirão o consenso final. E esta semana é pródiga de indicadores. Hoje, o Ministério do Desenvolvimento informa o saldo da balança comercial relativo aos três primeiros dias de outubro. No mês passado, o superávit foi de US$ 2,762 bilhões. O comércio exterior está sendo monitorado com lupa para se verificar o grau da contaminação externa. Amanhã, saem dados da indústria (CNI), de inflação (IGP-DI) e confiança de empresários (Fecap). Na quarta-feira, o IBGE divulga o IPCA do mês passado. A expectativa mediana do Focus é de que o índice oficial de inflação reduza a velocidade de alta de 0,28% em agosto para 0,21% em setembro. A agenda de índices de inflação prossegue com a divulgação do IPC-S, também na quarta, e as primeiras prévias de outubro do IPC Fipe e do IGP-M, na quinta.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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