SÃO PAULO - As ações de bancos dispararam ontem na Bolsa de Valores de Nova York não porque os investidores detectam o fim da crise de crédito que já dura quase um ano, mas porque a SEC mandou os fundos cobrirem suas posições vendidas em títulos emitidos por bancos. É uma medida dura contra a especulação, mas não disfarça o cheiro de artificialidade da alta de 2,52% registrada pelo Dow Jones. E a valorização influenciou os demais mercados.

A medida ajudou o dólar a subir frente ao euro, o iene e o real, esta a moeda vedete do carry-trade global. O dólar fortalecido, uma rara declaração pró- intervenção cambial do presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke - para quem atuações em favor do dólar são justificáveis em momentos em que os mercados se mostram desordenados - e o aumento dos estoques americanos derrubaram mais um pouco o petróleo. A barril fechou cotado a US$ 134,60 no pregão da Nymex, em queda de 2,98%. A ofensiva da SEC aconteceu em dia de divulgação de um número muito ruim sobre a inflação no varejo e de uma ata do Fomc reconfirmando a divisão do comitê e a sua condição de prisioneiro inoperante das circunstâncias. Se não dá para debelar a crise com medidas monetárias concretas, as saídas são o controle administrativo e o discurso ameaçador. Mas ninguém está autorizado a supor que a crise acabou.

A decisão da Securities and Exchange Commission (SEC) que provocou a forte alta das ações de bancos destina-se, em tese, a aquietar a especulação vendida sobretudo com papéis das financiadoras de hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac. Ela restringiu as vendas a descoberto das duas agências e de outras 19 instituições. Para a montagem de posições vendidas será necessário alugar ações. Resultado: saiu todo mundo para comprar papéis que antes eram rejeitados. A medida anulou o impacto negativo do CPI. O Índice de Preços ao Consumidor subiu 1,1% em junho, para uma expectativa de 0,70%, acumulando em 12 meses 5%. O núcleo teve alta de 0,3%, também acima das previsões consensuais de 0,2%.

São números de inflação que, na ausência de crise de liquidez no sistema financeiro, exigiriam alta imediata dos juros básicos dos EUA. A ata do Fomc divulgada ontem diz que se pensou no assunto: Com maiores riscos e expectativas de inflação, os membros do Fomc avaliaram que a próxima mudança na postura da política pode bem ser um aumento na taxa básica de juros; de fato, um dos membros achou que essa política deveria ser estabelecida neste encontro . Mas o aperto monetário não virá tão cedo. Contudo, na visão da maioria de nossos membros, a perspectiva para a atividade econômica e para os preços continua muito incerta e, dessa forma, o tempo e magnitude da futura ação continuam incertos , prosseguiu o documento. Há muito medo de se iniciar um ciclo de alta da taxa e se errar na dose, provocando uma recessão mundial.

Os mercados domésticos receberam a influência positiva vinda de Nova York. A aversão a risco diminuiu e o risco-Brasil tombou 6,42%, para 233 pontos-base. Nenhum mérito brasileiro, apenas reflexo da alta dos juros dos títulos do Tesouro americano. A taxa do T-10 avançou de 3,8236% para 3,9324%. O dólar, após queda de 1,6% nos últimos cinco pregões, subiu 0,56%, para R$ 1,5960. A reversão teve uma componente técnica.

Dados do BC mostraram que a moeda vinha caindo menos em função do fluxo externo e mais como decorrência da redução das posições compradas dos bancos à vista. A balança cambial estava, no mês, negativa em US$ 828 milhões até o dia 11, já que as remessas financeiras líquidas de US$ 3,44 bilhões superaram as entradas comerciais de US$ 2,61 bilhões. Se ao fluxo negativo de US$ 828 milhões forem acrescidas as compras feitas pelo BC por meio dos seus leilões (levemente acima de US$ 1 bilhão no período), conclui-se que as posições compradas dos bancos caíram dos US$ 7,34 bilhões com os quais fecharam junho para cerca de US$ 5,5 bilhões agora.

Os juros oscilaram com intensidade no mercado futuro da BM & F e acabaram fechando quase no zero a zero. Enquanto a taxa para a virada do ano ficou estável em 13,41%, o CDI previsto para janeiro de 2010 recuou de 15,02% para 15%. Os dados sobre inflação confirmam a visão de que o Copom irá, na semana que vem, manter o compasso de alta da Selic em 0,50 ponto. O IGP-10 de junho, em alta de 2%, após 1,96% em maio, mostrou que o pico das pressões inflacionárias já ficou para trás, enquanto um índice do presente, o IPC-S, recuou de 0,79% na primeira semana de junho para 0,69% na segunda.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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