SÃO PAULO - Os investidores estrangeiros já começaram a fazer o caminho de volta. Depois da fuga ocorrida na primeira quinzena de agosto, o capital externo já voltou a comprar ativos brasileiros. Nos doze primeiros dias úteis de agosto, eles se dedicaram a consolidar sua posição comprada (aposta de alta) em dólar nos pregões de derivativos cambiais da BM & F, depois de terem zerado sua posição vendida (aposta de queda) no final de julho. No dia 29 de julho aconteceu o ápice da aposta vendida. O capital estrangeiro estava, naquele dia, vendido em US$ 8,53 bilhões. Esse comprometimento foi sendo desfeito ao ritmo de US$ 1 bilhão por dia útil até ser zerado no dia 7. A partir daí, a aposta se inverteu radicalmente. Os hedge funds que operam na BM & F, ao assumirem o viés comprador, rejeitaram o carry trade dólar versus real e desdenharam a oferta do maior juro real do mundo. A posição comprada atingiu o ápice de US$ 3,74 bilhões na sexta-feira passada, dia 15.

Na inversão de comprado para vendido, o capital externo observou à risca o diagnóstico de que o fortalecimento do dólar diante sobretudo do euro e do iene - decorrente da percepção de que a economia americana estava mais sólida e saudável que a européia e a japonesa - derrubaria o preço das commodities e do petróleo a ponta de debilitar o balanço de pagamentos dos países emergentes cujas moedas são os principais alvos do carry trade. Esse diagnóstico perdeu força desde terça-feira, dia em que as commodities retomaram a via da alta e nela perseveraram ontem. Os hedge funds não perderam tempo: a posição compra líquida em cupom cambial e dólar futuro já caiu de US$ 3,18 bilhões no dia 18 para US$ 2,205 bilhões no dia 19. Eles voltarão a ficar vendidos , posição que estimula a queda do preço do dólar no mercado à vista e ajuda o Banco Central a combater a inflação?
Quem também não perde tempo, para um lado ou para o outro, são os bancos nacionais em suas posições à vista. Ao longo de julho, eles reduziram acentuadamente (de US$ 7,34 bilhões para US$ 2,99 bilhões) suas posições compradas. Mas, pelos números sobre a balança cambial dos primeiros 11 dias úteis de agosto divulgados ontem pelo BC, rapidamente recompuseram seu caixa comprado à vista. Como o fluxo cambial deste começo de agosto foi superavitário em US$ 3,74 bilhões mas o BC só comprou à vista US$ 736 milhões, conclui-se que a posição comprada dos bancos avançou de US$ 2,99 bilhões para US$ 5,99 bilhões. Esses dados deixam evidente, no entender do diretor da NGO Câmbio, Sidnei Nehme, que não há uma pressão de alta genuína, decorrente de demanda, sobre o dólar, mas sim uma pressão vinda do ambiente da BM & F. Não havendo fatores inerentes ao fluxo que poderiam sugerir a alta do preço do real, a especulação contra o real certamente é a causa , diz Nehme.

Os mercados ficaram reféns ontem de dois acontecimentos igualmente poderosos. No centro do palco, a condicionar o desempenho dos demais, o petróleo. A cotação era puxada para cima pelos rumores de que o governo chinês prepara um pacote de estímulos fiscais ao mercado interno, a ser anunciado depois dos jogos olímpicos, que permitam ao país sustentar um crescimento econômico autônomo, não contaminado pelo desaquecimento global. O plano, que promoveria uma isenção tributária no valor de US$ 45 bilhões, fez a bolsa de Xangai subir 7,63%. A cotação do barril era puxada para baixo pelo imprevisto crescimento dos estoques americanos. Na semana passada, o volume de óleo bruto estocado expandiu-se em 9,4 milhões de barris, um acréscimo onze vezes maior que o previsto pelos analistas. Ao longo do dia prevaleceu este segundo fator, e o barril chegou a ser cotado a US$ 112,61, em baixa de 1,68%. Mas, no fechamento da Nymex, o pacote chinês estimulou as rolagens compradas e a cotação foi a US$ 114,98, com avanço de 0,39% em relação à véspera.

Sintonizado com a diminuição das posições compradas dos estrangeiros na BM & F, o dólar não teve dúvidas em passar o dia em baixa. E fechou em queda de 0,43%, cotado a R$ 1,62. Já o pregão de juros futuros da BM & F operou segundo a lógica costumeira de que qualquer motivo é bom desde que justifique uma alta. E ao invés de cair refletindo os bons números sobre a inflação corrente, apegou-se à alta do petróleo baseada em rumores chineses e fechou em alta. A taxa para o final do ano subiu de 13,79% para 13,81%. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, avançou de 14,60% para 14,62%. O DI futuro não se extasiou com a deflação de 0,12% exibida pela segunda prévia do IGP-M de agosto, comparativamente a alta de 1,79% registrada no mesmo período de julho. Desaceleração importante também foi mostra pelo IPC FIPE, cuja segunda quadrissemana de agosto subiu 0,34%.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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