SÃO PAULO - Se os mercados não se acalmarem lá fora dificilmente os daqui irão se tranqüilizar. Sem a melhora externa, as tentativas governamentais de descontaminar o Brasil da peste global parecerão paliativos inconseqüentes.

Destinam-se a ganhar tempo e a não perder reservas cambiais enquanto se reza para a epidemia passar ao largo. Se a praga não chegar até a China já será uma benção. Os mercados locais espernearam histéricos ontem pois a impressão era de que, sufocados pela falta de dólar, tinham sido entregues a Deus pelo governo brasileiro. O socorro veio tarde. O dólar disparou 7,42% e fechou a R$ 2,1980. O juro do swap de 360 dias saltou de 14,38% para 14,59%. E o risco-Brasil pulou 10,95%, para 395 pontos-base.

Como será hoje? Ao confessar ontem o que o mercado desconfiava, o ministro da Fazenda Guido Mantega desvelou o alvo: se o governo brasileiro, em meio à pior crise financeira global desde 1930, não quer queimar reservas cambiais, é aí mesmo que serão concentradas as baterias do ataque. Toda vez que um governo pretende defender alguma coisa, sua vontade é testada diariamente até que haja um vencedor. Não havia uma defesa explícita de alguma posição desde que a trincheira da âncora cambial foi demolida em janeiro de 1999. Esta gestão do Banco Central nunca tentou impedir seriamente, sobretudo de 2004 a 2007, o movimento especulativo de apreciação do real. Tentará agora no sentido oposto?
O mercado informou ao governo ontem claramente o que estava querendo: dinheiro, tanto dólares quanto reais. Todo tipo de participante demandou a moeda americana, ninguém a forneceu, principalmente quem mais a tem, o Banco Central. Os rumores fervilharam de todos os lados: exportadoras sem crédito, abaladas por operações malsucedidas de venda futura de dólar, anunciavam que não iam honrar os contratos; sem crédito na praça, empresas resgatavam CDBs emitidos por bancos de menor porte que, após pagá-los, precisavam de redesconto junto ao BC para equilibrar o caixa; mesmo com lucro, especuladores " comprados " em dólar, estavam revertendo posição na BM & F e indo embora do país; necessidade de zerar compulsórios sobre depósitos a prazo.

A medida adotada pelo BC de antecipar a maior parte dos swaps cambiais reversos que irão vencer no dia 3 de novembro - o que representou a venda futura de moeda de US$ 1,47 bilhão - foi vista como insuficiente. Exportadoras, empresas e bancos querem moeda americana à vista. Em entrevista à imprensa, Mantega e o presidente do BC, Henrique Meirelles, anunciaram outra medida: o uso das reservas para o financiamento aos exportadores. Ao invés de aplicar os dólares em títulos do Tesouro americano, o BC irá emprestá-los, via bancos, aos exportadores. O mercado não gosta muito de nada que implique num dirigismo estatal que elimine apostas, riscos, ataques e volatilidades. Se for bom para todo mundo, não é bom para ninguém, e não interessa.

O teste prático da decisão conjunta Fazenda-BC de não fazer venda pura de dólares, mas de usar reservas com o objetivo de ampliá-las porque o juro cobrado no crédito externo será maior que o rendimento dos papéis do Tesouro americano, mesmo que a operação seja triangular, por meio da aquisição de títulos emitidos por bancos nacionais, será feito hoje. Como a conexão doméstica com a histeria externa é total, a reação será comandada pelos desdobramentos da turbulência nas praças européias e americanas. Enquanto as autoridades da Europa têm a espinhosa missão de deter a corrida aos bancos e de desbloquear os canais do crédito, os EUA precisam recuperar a credibilidade das pessoas que irão gerir o plano de salvamento de US$ 700 bilhões. Os analistas acreditam que uma equipe de Wall Street comandada por um ex-funcionário do Goldman Sachs não terá credibilidade para isso. Sugere-se a nomeação de time fora do círculo financeiro de Nova York, capitaneado por sumidade do porte de um Paul Vocker, apoiado em conjunto por Bush, Obama e McCain.

Sob contágio do dólar, da Bolsa e do risco-país, os juros futuros subiram na BM & F. O contrato mais negociado, com vencimento em janeiro de 2010, avançou de 14,49% para 14,82%. Essa alta não tem nada a ver com a política monetária do BC. Os analistas não concordam com os altistas de sempre segundo os quais o Copom terá de subir mais ainda a Selic para debelar a inflação pressionada pela depreciação cambial. Para o mercado, mesmo sendo o mais conservador do mundo, o BC brasileiro não poderá desta vez se abster da aglutinação mundial por um choque baixista de juros que resgate o crédito mundial.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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