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Análise: BCs se reúnem no aniversário do crash

SÃO PAULO - Os comitês de política monetária dos bancos centrais do Brasil e dos EUA têm, esta semana, reuniões agendadas para um dia historicamente sombrio, mesmo nos anos em que não há crise financeira. Na próxima quarta-feira, a Bolsa de Valores de Nova York certamente não fará questão de lembrar de forma alguma o 79º aniversário do seu maior crash, o sofrido no dia 29 de outubro de 1929.

Valor Online |

O segundo maior aconteceu no dia 18 de outubro de 1987. O atual não se concentra em um único dia. Trata-se de uma queda livre num poço sem fundo. O Federal Reserve (Fed) marcará a data por meio de mais uma redução do juro básico, hoje em 1,5%. Possivelmente, a taxa cairá a 1%, o patamar mítico usado por Alan Greenspan entre junho de 2003 e maio de 2004 para afugentar a recessão. E que agora está sendo acusado de fomentar todas as bolhas especulativas do mundo. E o nosso Copom? Ele não pode pensar em outra coisa que não seja uma flexibilização monetária. Para os rígidos e ultraconservadores padrões brasileiros, a parada na alta já pode ser considerada uma espécie de afrouxamento.

Com a estabilidade do juro básico em 13,75%, após avanço acumulado de 2,5 pontos desde abril, o BC não irá sancionar a disparada dos juros ocorrida no mercado futuro da BM & F. Nem precisa. A crise externa fornece farta munição para os "comprados" em taxa encostarem na parede os "vendidos". Os maiores "comprados" são as tesourarias de bancos. Na última posição conhecida, referente ao dia 23, carregavam liquidamente caixa comprado em DI de R$ 87,6 bilhões. Os "vendidos" são os investidores estrangeiros (R$ 109 bilhões) e os fundos nacionais (R$ 17,21 bilhões). Quanto mais o DI sobe, mas ganham os comprados. Na sexta-feira, o contrato mais negociado, para janeiro de 2010, avançou de 15,72% para 16% no pregão viva-voz. No after-market, fechou a 17,02%. Há uma semana estava em 14,74%. Se o Copom persistir na elevação da Selic pode ser acusado de favorecer ainda mais os comprados. E de impor perdas ainda mais graves aos investidores institucionais que carregam títulos públicos prefixados.

A rigor, a política monetária está numa camisa-de-força. Depois que o BC elegeu os swaps cambiais como o principal instrumento de irrigação de liquidez para o mercado de câmbio - uma forma que evita o dispêndio final das reservas cambiais -, ele voluntariamente abriu mão de usar a Selic para estimular o ingresso de dólares e derrubar a cotação. Se é assim, grandes investidores preferem ficar "comprados" em dólar futuro. A posição dos fundos estrangeiros em cupom cambial e dólar futuro atingiu o recorde de US$ 10,77 bilhões na quinta-feira. Estava em US$ 6,67 bilhões no começo de outubro. Trata-se de uma aposta vitoriosa. Na sexta-feira, o mercado ignorou os quatro leilões de venda feitos pelo BC e fechou em alta de 0,95%, cotado a R$ 2,3270. Na semana, a moeda acumula valorização de 9,76%. E no mês de 22,22%.

Os analistas acreditam que o melhor mesmo que o BC pode fazer quando não há informação suficiente e confiável sobre o que pode acontecer no futuro - e ele não tem segurança alguma sobre o que vai acontecer com o câmbio, a inflação, a atividade e o emprego nos próximos meses - é não fazer nada mesmo. E só atuar quando tiver alguma indicação mais consistente. Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, após a "parada" de depois de amanhã, há grande chance de o Copom ter de reduzir a taxa já na reunião de dezembro, pois se confrontará com diversos números ruins sobre atividade econômica. "Por enquanto, eles ainda não apareceram, pois se referem a setembro. A partir dos dados referentes a outubro, sobretudo os relativos a renda e investimentos, o cenário mudará", prevê Agostini.

O estrategista da Pentágono Asset, Marcelo Ribeiro, embora concorde com a pausa na quarta-feira, tem visão de médio prazo oposta a essa. Ele acredita que o processo de alta da Selic terá de ser retomado depois que ficar claro que a valorização do dólar veio para ficar, aqui e em todo lugar no mundo. A moeda persistirá pressionada pelos próximos dois anos pela demanda por parte de instituições interessadas em desalavancar posições.

O consultor Paulo Gurgel Valente, diretor da Profit Consultoria, observa que, também agora, o Copom vai seguir o seu tradicional raciocínio segundo o qual quando a conjuntura é de expansão da economia e aceleração potencial da inflação, acima da meta, ele age preventivamente e, antecipando as expectativas, aperta a política monetária, e quando o ambiente é de uma possível desaceleração, com queda na inflação, espera acontecer, para só então reduzir de fato a taxa Selic.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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