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Análise: BC mira no câmbio e acerta especulador

SÃO PAULO - Um fenômeno raro aconteceu no mercado de câmbio. As cotações do dólar no mercado à vista não foram, na sexta-feira, determinadas pelas armações tecidas por especuladores nos mercados de derivativos cambiais da BM & F.

Valor Online |

Para desespero dos " hedge funds " pesadamente comprados (aposta na alta do dólar), pela posição de quinta-feira, em US$ 6,87 bilhões ocorreu justamente o contrário: o pregão físico ditou o comportamento do mercado futuro, e este travou, já nas primeiras horas da manhã, quando foi atingido o limite de baixa de 5% definido pela BM & F. A inversão dos papéis só foi possível por causa da correta decisão do Banco Central de fornecer empréstimos em dólar aos bancos para suprir a ausência de linhas externas aos exportadores. E o BC fez dois leilões de linhas num momento de euforia geral nos mercados desencadeada pela intenção do governo americano de criar uma empresa para absorver os títulos podres que hoje contaminam as carteiras de instituições e não encontram financiadores.

Com o leilão, o BC impôs uma baixa ao dólar no mercado físico e, com isso, passou a interferir no preço da moeda nos pregões de derivativos da BM & F. A consequência foi imediata. " Foi um tiro certeiro na especulação " , comemorou o diretor da NGO Câmbio, Sidnei Nehme. " Certamente as perdas dos especuladores não serão pequenas " . Como o processo de cessão da linha de crédito consiste em atrelar uma venda " à vista " a uma compra " futura " pelo prazo de 30 dias, o BC fixa a taxa cambial nas duas pontas e isso inviabiliza a tacada especulativa de definir artificialmente uma cotação futura. Com os leilões, essa definição de taxa futura baseada no poderio cacifado pelos " hedge funds " encontra uma barreira igualmente poderosa: os bancos que querem comprar as linhas do BC. O custo delas só será sustentável senão houver distorção especulativa da cotação futura. O BC aceitou variação cambial de 0,99% no primeiro leilão e de 0,71% no segundo.

O contrato de dólar futuro com resgate na virada do mês, que fechou quinta-feira, no auge da especulação, cotado a R$ 1,8910, abriu sexta-feira já a R$ 1,8660 e às 11 horas batia no limite de baixa de 5% (preço de R$ 1,845479) fixado pela BM & F. Mas como o dólar à vista persistia sob pressão de baixa, e como um mercado não existe sem o outro em face das arbitragens, a BM & F teve de alargar a janela permitida à queda para 8%, escavando o piso admissível até R$ 1,787201. A medida só valeu para sexta-feira. Hoje, o limite de 5% volta a vigorar.

Com a providencial ajuda fornecida informalmente pelo Tesouro americano, as operações de venda de linhas externas pelo BC foram sucesso absoluto. No primeiro leilão, aceitou apenas duas propostas e vendeu US$ 200 milhões porque os bancos queriam comprar muito barato. Como o objetivo do BC não é derrubar o dólar mais fornecer liquidez em moeda estrangeira para quem precisa, não poderia aceitar as condições do comprador, afinal todo banco quer comprar barato e vender caro. Entendido esse pressuposto, o BC voltou à tarde a oferecer os restantes US$ 300 milhões, colocando todo o lote originalmente oferecido à venda, de US$ 500 milhões. No primeiro leilão, o BC vendeu a R$ 1,8330 e no segundo a R$ 1,8270. O dólar fechou cotado a R$ 1,8310, em desvalorização de 5,12%.

A moeda ainda tem muita gordura para derreter. Na semana, ainda acumulou alta de 2,81%, e, no mês, de 12,19%. A continuidade da baixa dependerá do restabelecimento do crédito externo e do prosseguimento dos leilões do BC, embora, para uma parte do mercado, a disparada recente foi mais decorrente da especulação do que da falta de crédito. Como os bancos viraram a primeira quinzena de setembro " comprados " em US$ 7,4 bilhões em suas posições registradas à vista no BC, não dá para reclamar da falta de liquidez. Para consolidar a rota de baixa do dólar o BC deverá no final do mês não renovar os US$ 2 bilhões em swaps cambiais reversos que irão vencer. A tendência é de todo o estoque de US$ 23 bilhões atualmente em poder dos bancos ser devolvido ao BC conforme os papéis forem vencendo.

O retorno do dólar a um patamar menos irracional desarma a nova argumentação já levantada pelos " altistas " para justificar o pleito de continuidade do aperto monetário do Copom na velocidade máxima de 0,75 ponto de avanço da Selic por reunião. O mercado futuro de juros já devolveu toda a alta turbinada na semana pela falência do Lehman Brothers, pela venda da Merrill Lynch e pelo socorro a AIG. O CDI previsto para a virada do ano fechou sexta-feira a 14,02%, quando, na sexta anterior, havia encerrado a 14,03%.

"(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)"

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