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Análise: BC compra dólar e ajuda especulador

SÃO PAULO - Com a valorização de 2,13% registrada ontem, para R$ 1,7720, o dólar passou a acumular alta de 8,38% apenas nesses sete primeiros pregões de setembro. De agosto até ontem, a moeda americana subiu 13,37%. Ou seja, somente em 28 dias úteis, o dólar pagou mais que a Selic de um ano. Não é à toa que os investidores estrangeiros estão comprados em dólar nos mercados futuros da BM & F. A posição subiu de US$ 906 milhões no dia 5 para US$ 1,01 bilhão na segunda-feira. O que faz o Banco Central diante da escalada do dólar? Ele continua comprando à vista. Apesar da alta, o BC não emite sinais de que pretenda interromper a realização dos seus leilões diários de compra de dólar. Isso pode estar aumentando o ganho dos especuladores comprados , pois num mercado sem liquidez o leilão de compra do BC só acontece se referendar uma cotação mais elevada. Ou seja, indiretamente, ele está estimulando a alta do dólar. Esse incentivo é contraditório a uma autoridade monetária cujo único objetivo autoconfessado na vida é o de conduzir a inflação ao centro de sua meta.

Valor Online |

O BC comprou ontem cerca de US$ 54 milhões por preço de R$ 1,7592, levemente acima da cotação do mercado no momento em que entrou. A taxa de corte usada por ele referendou um preço de mercado 1,38% maior que o da véspera. Vale dizer que ele chancelou uma valorização do dólar de 1,38%. Após o leilão, realizado às 15 horas, o dólar disparou mais ainda. Em setembro, o volume médio diário de compras se reduziu à metade comparativamente ao mesmo período de agosto. No mês passado, a média foi de US$ 89,16 milhões. Em setembro, de US$ 43,8 milhões. O volume de negócios já não justifica mais a presença do BC na ponta de compra, nem a necessidade de formar reservas cambiais - atualmente em US$ 205,38 bilhões - ou de dar liquidez para quem quer entrar no país. Afinal, ninguém quer entrar aqui.

Há três virtudes teóricas no prosseguimento dos leilões de compra. A primeira é que ele pune o estrangeiro que está deixando o país com uma taxa de troca mais elevada. A segunda é que, como o BC é credor em dólares, seus ativos crescem. A terceira é o sinal emitido ao mercado de que não acredita na solidez e na consistência do movimento de alta da moeda. Desse ponto de vista, como a arrancada é transitória, ele não precisa se preparar para atuar na ponta oposta, a da venda de moeda em leilões destinados a dar liquidez a quem quiser ir embora.

O BC pode ter a convicção íntima de que a violenta aversão ao risco que sacudiu ontem os mercados globais seja passageira. O fato é que um dia depois de o Tesouro americano ter despejado uma montanha de US$ 200 bilhões sobre agências hipotecárias, o mercado disse para ele que isso não era suficiente, que possivelmente o quarto maior banco de investimento dos EUA, o Lehman Brothers, cujas ações desmoronaram 45% na Nyse, iria precisar de outra megaajuda do Federal Reserve (Fed). Quem mais? A bola de neve começou a crescer e os grandes investidores globais passaram a não encontrar mais refúgios seguros para o seu capital. Venderam ações, moedas e bônus de países emergentes, além de commodities e petróleo. E foram comprar títulos do Tesouro americano. Mas como este amplia o déficit fiscal assombrosamente para salvar instituições podres, a opção pode não ser das mais satisfatórias. Avesso ao fogo, o investidor pode estar buscando refúgio na casa do incendiário.

Juro real brasileiro é o dobro do 2º lugar - Na véspera do Copom, os juros subiram no futuro. As taxas longas refletiram a fuga dos estrangeiros. O CDI para janeiro de 2010 avançou de 14,78% para 14,83%. Se ele subir a taxa Selic em 0,75 ponto, o Brasil, que já é, antes da decisão de hoje, o maior pagador de juro real do mundo, passará a remunerar o capital estrangeiro com uma taxa acima da inflação quase o dobro do segundo colocado. O juro real brasileiro subirá a 8,1%, enquanto a taxa do vice-campeão, a Turquia, não supera 4,2%. O terceiro lugar, de acordo com o ranking dos 40 países com maior fluxo de investimentos do mundo elaborado pela UP Trend, o México, está bem distante, com juro real de 2,6%.

A distância do país medalha de ouro para os demais vem crescendo porque, enquanto os outros relutam em apertar ainda mais a política monetária num momento em que se agigantam os sinais de desaquecimento da economia mundial, o Brasil é o único que age para magnificar internamente os efeitos da freada global. Enquanto estão todos tentando evitar o desastre, o BC brasileiro acelera o juro em direção ao muro.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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