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Análise: Bala de festim desaponta mercado

SÃO PAULO - A bala de prata contra a crise era de festim. O mercado recebeu o plano do secretário do Tesouro de Barack Obama como se ele tivesse sido elaborado e apresentado pelo de George W.

Valor Online |

Bush. Como se o incensado Timothy Geithner de hoje fosse o tristonho Henry Paulson de ontem. O fundo público-privado parece bolinho requentado das elites políticas ineptas: um plano para dar dinheiro aos bancos sem resolver o problema central, a contaminação exercida pelos ativos tóxicos. O mercado global desconfia que não vai funcionar. E liquida as ações dos maiores bancos. O que ele queria era simples: a criação de uma instituição pública que, rápida e radicalmente, absorvesse o lixo podre e, com isso, resgatasse a confiança nos grandes bancos americanos. O mercado queria que o lixeiro público deglutisse a parte ruim do Bank of America, do Citibank, do J.P. Morgan e do Wells Fargo, sem nacionalizá-los. Não veio a pior parte, nem a melhor.

Como a dupla Obama e Geithner quer agradar a todo mundo - e isso é uma insensatez num mundo financeiro regido pela lei segundo a qual para alguém ganhar, alguém precisa perder -, não fez nem a estatização que imporia perda a acionistas e a contribuintes, nem a nacionalização apenas da banda podre dos bancos, mantendo privada a parte boa das instituições, que só atingiria o contribuinte. " O fundo público-privado nomeará gestores que irão analisar, caso a caso, os ativos problemáticos dos bancos. Isso é muito demorado e complicado. Tem grande chance de não funcionar bem " , diz o economista-chefe da Gradual Investimentos, Pedro Paulo Silveira.

O problema não parece residir na quantidade de dinheiro deslocada pelo governo Obama para tentar salvar os bancos. Tanto faz que sejam US$ 1 trilhão ou US$ 2 trilhões. O problema é de confiança. O Plano Geithner de recapitalização dos bancos passa a mesma impressão dos planos do seu antecessor: remendos provisórios que adiam a decisão inevitável, a nacionalização dos maiores bancos americanos, a começar dos quatro maiores, cujas ações despencaram logo após a divulgação do pacote financeiro, e não reagiram depois que o Senado aprovou o pacote fiscal de US$ 838 bilhões. O plano prevê o " teste de estresse " , para saber se o banco privado merece e fará bom uso do dinheiro público. Se passar no teste, dará em troca dos recursos ações preferenciais. Se o cenário piorar, tais ações podem se transformar em ordinárias. Nacionalização envergonhada?
Como se faria a nacionalização verdadeira? O governo assumiria os bancos e daria em troca aos acionistas um título resgatável em, por exemplo, 100 anos, da dívida pública americana. Seria um papel especialmente criado para isso e negociável no mercado secundário. Seria justo? Quem era acionista do Citibank há dois anos certamente não sabia do risco que os ativos do banco estavam assumindo. Mas se ele não vendeu essas ações nos últimos seis meses é porque, consciente do risco, ficou com os papéis visando a um lucro futuro. Ou seja, ele sabia do risco, resolveu corrê-lo por ganância e terá de assumir a perda em caso de nacionalização. Isso é mercado. Depois de nacionalizada a instituição, se faria a separação entre os ativos que são micos perenes e representam puro prejuízo e os que poderão ser resgatados no futuro.

Os primeiros são os papéis resultantes da própria bolha especulativa e os seus filhotes securitizados e colateralizados. Em relação a eles, há duas providências: o erário assume de imediato a perda financeira e aciona judicialmente os responsáveis pela especulação com a intenção de receber parte do rombo de volta. Os segundos são os ativos depreciados pela própria dinâmica da crise econômica e que, uma vez recuperada a credibilidade do sistema e restaurados os canais que permitirão a volta do crescimento econômico, poderão ser renegociados. Com a economia voltando a crescer, o devedor poderá arregimentar condições para renegociar sua dívida. Depois de saneada a instituição nacionalizada, ela seria, sob nova regulamentação, bem mais estrita, oferecida em leilão público de pulverização de suas ações.

A rejeição dos mercados ao pacote de Geithner respingou nos pregões domésticos. A aversão a risco cresceu e o dólar, após cinco quedas, fechou em alta de 2,10%, cotado a R$ 2,2840. A fuga dos investidores estrangeiros impôs um ritmo diferente ao mercado futuro de juros da BM & F: enquanto os juros da parte curta da curva futura declinaram, os da parte longa subiram. Para a virada do ano, o contrato cedeu 0,05 ponto, para 11,12%, sob o argumento de que, se os pacotes de Obama não resolverem e a crise piorar, o BC terá de aprofundar o relaxamento monetário. O swap de 360 dias recuou de 11,16% para 11,12%.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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