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Análise: Ata terá de elucidar ´conundrum´ do BC

SÃO PAULO - Por que o Banco Central resolveu arrochar ainda mais a sua política monetária, já tida antes disso como a mais perversa do mundo, justamente quando os índices de preços começam a esmorecer e as commodities a devolver os ganhos recentes? Já que a decisão tomada na quarta-feira da semana passada só surtirá pleno efeito prático, na hipótese mais otimista, no início de 2009, estará ele profetizando uma brutal aceleração inflacionária daqui a seis meses quando os analistas internacionais mais atilados temem exatamente o oposto, o fenômeno da deflação? São estas questões enigmáticas que o mercado quer ver esclarecidas na ata do Copom realizado no dia 23 e que será publicada na próxima quinta-feira.

Valor Online |

Os mercados querem mais: como, apesar de a intensificação da velocidade de alta de Selic para 0,75 ponto ter sido decidida extemporaneamente - inteiramente fora de contexto e de oportunidade conjuntural sugerida pelo uso equivocado do advérbio tempestivamente no comunicado pós-Copom -, não seria lógico supor que o novo ritmo será descontinuado logo na reunião seguinte (tornando o resultado do Copom de 10 de setembro desestimulante para o fechamento de apostas no mercado futuro de juros da BM & F), interessa avançar para o que pode acontecer no encontro posterior, o de 29 de outubro. Vale dizer: importa mais agora o tamanho do ajuste total imaginado pelo BC do que o seu plano de vôo e a velocidade de cruzeiro para chegar até lá.

Economistas e tesoureiros se uniram na interpretação de que o ajuste será mais intenso e menos longo. É o que se vê nas opiniões e na curva traçada pelos juros futuros. Enquanto a taxa curta (para a virada do ano) avançou de 13,50% no dia anterior ao Copom para 13,68% na sexta-feira, a taxa longa (para janeiro de 2011) cedeu de 14,90% para 14,53%. Mas esta suposição pode estar errada desde a sua origem. A rigor, não há como um BC integrado por humanos falíveis saber de antemão até onde poderá ir ou se já foi longe demais. Como diz o economista-chefe da SLW Asset Management, Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, a palavra-símbolo do atual aperto - o tempestivo - assume como previamente conhecido um padrão de conduta para os juros futuros absolutamente indevassável e incognoscível. Nenhum Banco Central conhece ex-ante o nível de equilíbrio da taxa de juros , observa Carlos Thadeu.

O tempestivo tem, por isso, mais a função de indicar que o BC tem a preocupação em realizar rapidamente a obrigação de trazer a inflação de volta à meta. E essa intenção o mercado associa imediatamente com o desejo de um nível menor de juros no futuro. Para o economista, essa ilação do mercado (certamente não incentivada pelo BC) reduz a eficácia dos canais de transmissão da política monetária de duas maneiras. A primeira, ao estimular a expansão do crédito, já que o ajuste é entendido como de curto prazo e um recuo das concessões de financiamento leva a perda de market-share pelas instituições. A segunda, ao incentivar o consumo intertemporal. Explica-se: os agentes não abrem mão de consumir hoje pois se sentem seguros sobre o nível de emprego e salários. Apesar disso tudo, seria pior a retirada do tempestivo da ata do Copom, pois ela iria jogar o mercado na escuridão discricionária. Na atual penumbra, os analistas conseguem imaginar a extensão do aperto total, com Selic entre 14,75% e 15,25%.

Como o BC já está à frente da curva futura , se as expectativas de inflação do mercado cederem significativamente até 10 de setembro, data da próxima reunião do Copom, em sintonia com o esvaziamento da bolha de commodities e o recuo da inflação corrente, e ele se mantiver irredutível no avanço de 0,75 ponto, ao invés da atuação tempestiva agirá de maneira tempestuosa. Depois de subirem na quinta-feira como forma de se adequar à dose extra de juro imposta pelo Copom, na sexta-feira até os contratos mais curtos caíram no pregão da BM & F.

A ata que sairá na quinta-feira está sendo ansiosamente aguardada porque irá atualizar o discurso do BC após textos considerados brandos e defasados, como o Relatório de Inflação e a ata anterior. Sobretudo os investidores externos necessitam de retórica furibunda que afaste qualquer ameaça às suas operações de carry trade com reais. As posições vendidas em derivativos cambiais dos fundos estrangeiros subiram de US$ 6,77 bilhões antes do Copom para US$ 7,49 bilhões depois. O dólar fechou sexta-feira cotado a R$ 1,5730, em queda de 0,41%. Na semana, acumulou perda de 1%. No ano a desvalorização é de 11,48%.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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