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SÃO PAULO - O dólar interrompeu ontem seqüência de sete altas e fechou com recuo de 0,61%, cotado a R$ 1,6150, um dia depois de o Banco Central ter divulgado estudo especial mostrando que o déficit em conta corrente, por ser financiável, não preocupa. O relatório otimista e confiante do BC atraiu de volta ao câmbio os exportadores, cuja oferta de moeda escasseou depois que a valorização do dólar passou a ser maior que a rentabilidade que eles obtêm nas aplicações dos reais correspondentes em renda fixa. A baixa sofrida ontem pelo dólar após avanço de quase 4% em agosto contrariou a tendência internacional. A Europa e o Japão estão angustiados com os informes de estagflação, enquanto os indicadores americanos não são tão ruins. A desvalorização interna do dólar não foi suficiente para brecar a saída de investidores estrangeiros do mercado futuro de juros da BM & F. Foi por esta razão que as taxas longas persistiram em alta.

As economias européia e japonesa dão mostras de preocupante debilidade. A Pesquisa Econômica Ifo acusou, para a Europa, deterioração pelo quarto trimestre seguido. O índice Ifo de clima econômico caiu de 76,3 no segundo trimestre deste ano para 61,9 no terceiro trimestre. O índice destinado a aferir a conjuntura econômica atual cedeu para 84,1, de 100,9 no trimestre anterior. As expectativas também pioraram, caindo de 55,8 para 43,4 no período. O Banco Central inglês (BOE) alertou por meio do seu Relatório Trimestral de Inflação para a possibilidade de a Inglaterra entrar em recessão técnica, enquanto o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodriguez Zapatero, interrompeu suas férias de verão para, em reunião extraordinária com seus ministros, elaborar medidas para estancar a crescente deterioração da economia.

Os números espanhóis não são de fato tranqüilizadores: enquanto o PIB teve seu crescimento reduzido de 2,7% no primeiro trimestre para 1,7% no segundo, a inflação atingiu em julho a taxa anual de 5,3%, a maior em 15 anos. A economia japonesa não está melhor. O PIB sofreu contração de 0,6% no trimestre de abril a junho, quando tinha crescido 0,8% nos três meses anteriores. Não ocorria um PIB negativo desde o mesmo trimestre de 2007 na segunda maior economia do mundo.

Nos EUA, os indicadores não vieram tão ruins quanto os europeus e justificaram a valorização do dólar. As vendas varejistas caíram no mês passado pela primeira vez em cinco meses. Mas a baixa foi de apenas 0,1%. Os preços das importações aumentaram em julho 1,7%, quando os analistas americanos esperavam uma desaceleração de 2,6% para 1%. A inflação dos importadores de fato arrefeceu, mas bem menos que o esperado. Sai hoje o CPI, o Índice de Preços ao Consumidor de julho. Se superar a previsão de 0,4% reavivará a expectativa de alta dos juros básicos americanos, hoje congelados em 2%. E injetará mais combustível na alta do dólar. Atenção maior foi dada pelos operadores às quedas registradas nos estoques americanos de petróleo e gasolina. No primeiro caso, o mercado previa baixa de 200 mil barris, mas na verdade a redução foi o dobro disso. Para o segundo, a expectativa era de queda em 2,1 milhões, mas atingiu o triplo disso. A surpresa fez o barril do petróleo negociado na Nymex fechar em alta de 2,64%, cotado a US$ 116,00, após três dias em forte queda.

Mas essa alta do petróleo foi tida como insuficiente para explicar mais um dia de avanço nas expectativas de juros do mercado futuro da BM & F. A taxa para a virada do ano subiu de 13,74% para 13,76%. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, evoluiu de 14,74% para 14,75%. As taxas mais longas avançaram com maior vigor. O CDI negociado para janeiro de 2011 passou de 14,45% para 14,49%. Surgiu um único dado favorável à continuidade do aperto monetário pelo BC. Foi o volume recorde de vendas contabilizado em julho pela indústria de papelão ondulado, consideradas um valioso indicador antecedente do fôlego geral da economia. As vendas atingiram 201,98 mil toneladas, cerca de 7,6% maiores que as feitas em julho de 2007. No entender dos analistas, para o Copom desacelerar o ritmo de alta da Selic não bastarão números sossegados sobre a inflação corrente. A demanda precisa passar atestado de desaquecimento. Os dados de inflação a serem divulgados durante o mês de agosto trarão resultados que reforçarão a percepção de alívio na pressão altista de preços, tanto no atacado quanto no varejo. Isto melhorará a perspectiva conjuntural de condução da taxa básica de juros , diz Marcel Pereira, economista-chefe da RC Consultores.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)