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Análise: Anestesiado, DI só justifica sinal do BC

SÃO PAULO - Como o Banco Central não altera, por nenhum meio conhecido, o sinal de que na próxima reunião do Copom, marcada para 10 de setembro, irá sustentar a velocidade de alta da Selic no 0,75 ponto imposto no encontro passado, o mercado futuro de juros da BM & F persiste anestesiado. Não só ignora todos os indícios de que a inflação está em queda, como não desafia o BC e desiste da precificação de uma Selic de 13,75% no dia 10 e de 14,75% no fim do ano. Refém da vontade do BC, o DI futuro está engessado. Mesmo em dias de forte volatilidade e especulação nos mercados internacionais, ele não consegue chegar nem no giro de 400 mil contratos, nível insignificante para quem, no passado, em dias mornos, movimentava 600 mil. Como o BC, contra todas as expectativas minimamente racionais, insistirá em subir o juro básico para 13,75% no dia 10, o trabalho dos players do DI se limita a forjar argumentos capazes de fornecer alguma justificativa a movimentos de alta dos juros futuros que sancionem a vontade do BC.

Valor Online |

Foi por isso que o pregão recepcionou um pesado tombo da inflação oficial com um ajuste para cima nas projeções de CDI. Contraditório? Em relação à realidade, sim. Com a vontade do BC, não. E a vontade do BC vale mais que a verdade e a realidade. Divulgado na sexta-feira, o IPCA-15 de agosto, uma prévia da inflação cheia do mês, veio aquém da mediana das expectativas dos analistas, de 0,39%. A sua alta foi de 0,35%, ante avanço de 0,63% em julho. A desaceleração foi quase pela metade. E os juros subiram. O CDI para a virada do ano passou de 13,83% para 13,85%. E a taxa para janeiro de 2010 subiu de 14,66% para 14,69%. Os juros subiram num dia em que as commodities retomaram a tendência de baixa. O índice CRB de 19 commodities caiu 2,74%. Constrangidos, os analistas invocam as pressões da inflação de serviços. Não convencem, embora dos vários itens que compõem o IPCA-15, o único que subiu de maneira mais forte em agosto foi o de serviços.

Mas todos os outros se comportaram de forma sossegada. Enquanto os serviços avançaram 0,52%, os preços livres acusaram alta de 0,26%, os não-duráveis avançaram 0,32%, os duráveis cresceram 0,07% e os semi-duráveis registraram deflação de 0,24%. E a alta dos serviços, decorrente do repasse da elevação de custos provocada pela bolha das commodities e do petróleo, era perfeitamente previsível. Segundo acompanhamento da LCA Consultores, as medidas de tendência do IPCA registraram ligeira desaceleração adicional na parcial de agosto. A média das três principais medidas de núcleo recuou para nível anualizado de 4,34%, situando-se abaixo da meta de inflação perseguida pelo BC, de 4,5% ao ano.

O viés da hora assumido pelas commodities só tem uma influência sobre o mercado de juros, de alta. Quando o petróleo e os produtos agrícolas estão em queda, a pressão de baixa sobre a inflação não é maior que a de alta exercida pelo dólar, já que moeda americana e commodities trafegam em mãos opostas. Foi o que aconteceu na sexta-feira, quando os juros subiram supostamente para acompanhar a valorização de 1,05% do dólar, cotado a R$ 1,6280. Quando ocorre o inverso, a apreciação cambial nunca é suficientemente vigorosa para neutralizar o impacto da alta das commodities sobre o IPCA. Em qualquer hipótese, o Copom sempre estará certo.

Os índices de inflação que irão ser divulgados esta semana não mudarão a tendência de alta do DI porque não se imagina que o BC venha a público dizer que errou na última reunião do Copom ao acelerar o ritmo de alta da Selic de 0,50 para 0,75 ponto. Na quarta-feira serão divulgados o IGP-M de agosto (expectativa de uma deflação de 0,14% após alta de 1,76% em julho) e a terceira quadrissemana do IPC FIPE (previsão de mais uma desaceleração, de 0,34% para o nível de 0,31%).

Na agenda americana, o evento mais relevante da semana - a ata da última reunião do Fomc, a sair amanhã - foi esvaziado por discurso feito na sexta por Ben Bernanke. Nele, o presidente do Fed sinalizou que o juro básico persistirá congelado em 2% por longo período. O mercado, não obstante os informes assustadores sobre a inflação corrente, desistiu de aposta em alta ainda em 2008. É que Bernanke, ao contrário do DI futuro brasileiro, tem uma visão muito clara sobre os efeitos da queda das commodities e do petróleo sobre a inflação americana. As pressões são, indubitavelmente, de baixa. Mas o Fed não pode apressar o contágio benéfico, por meio de um avanço de 0,25 ponto, por causa da crise das instituições americanas. Agradou a abertura de um novo canal para a solução da crise, a notícia de que o Lehman Brothers poderá ser comprado pelo Banco de Desenvolvimento da Coréia do Sul.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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