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Análise: Alívio de fim de trimestre não engana

SÃO PAULO - Os mercados globais ensaiaram ontem uma recuperação porque, como não havia nenhum evento ou decisão relevante a merecer antecipação, nenhuma expectativa foi contrariada. Os investidores se agarraram a um fiapo de sentimento positivo resultante tanto da perspectiva de que, no final deste mês, o Federal Reserve (Fed) poderá cortar a taxa de juros básica dos EUA quanto da confiança dos líderes democratas de que a nova versão do pacote de resgate do sistema será acolhida pelo Congresso.

Valor Online |

A trégua, cujo pretexto foram os festejos do Ano Novo judaico, coincidiu com as tentativas de salvar os balancetes do terceiro trimestre, encerrado ontem.

No mercado doméstico, o dólar fechou em queda de 3,15%, cotado a R$ 1,9040, mas acumulou em setembro valorização de 16,45%. E os juros caíram pesadamente no mercado futuro da BM & F. O contrato mais negociado, para janeiro de 2010, tombou de 14,71% para 14,47%. A taxa do swap de 360 dias cedeu de 14,57% para 14,44%. Os contratos mais curtos, para os próximos meses, foram os que menos caíram pois estão amarrados à política monetária ortodoxa do BC. O CDI previsto para a passagem de novembro para dezembro permaneceu estável em 13,86%.

Na ausência de dados sobre o andamento da crise bancária e do pacote de salvamento, os investidores voltaram as suas atenções para os indicadores americanos acerca da economia real. E eles vieram surpreendentemente bons. " Os indicadores de atividade econômica e confiança atingiram níveis positivos e mostraram que a economia americana segue seu rumo, apesar da crise " , diz o economista-chefe da UP Trend, Jason Vieira.

O índice considerado o " barômetro " de negócios, o Chicago PMI (Purchasing Managers Index) caiu menos do que o esperado pelos analistas. Ficou em 56,7 pontos, ante uma expectativa média do mercado de queda para 54 pontos. " O mais interessante é que o índice se refere ao mês de setembro, período de auge da crise bancária nos EUA " , observa Jason Vieira. Outro indicador com resultado positivo foi o índice de confiança do consumidor apurado pelo Conference Board. Ele subiu a 59,8 pontos neste mês contra 58,5 pontos em agosto, enquanto a projeção média do mercado indicava 55 pontos. Constata-se, de novo, que os analistas estão pintando a realidade mais feia do que de fato ela é.

Rumo da Selic divide mercado em três alas - Faltam, no calendário de 2008, apenas mais duas reuniões do Copom. Serão realizadas nos dias 29 de outubro e dez de dezembro. Os analistas estão muito divididos sobre o que fará o BC. Há três correntes: 1) A que defende a suspensão imediata do ciclo de alta, com a Selic permanecendo em 13,75% até o final do ano e começando a cair já na primeira reunião de 2009. 2) A maior ala parece ser a dos economistas que acreditam em pelo menos mais uma alta da taxa, entre 0,25 e 0,50 ponto. 3) A porção mais ortodoxa defende duas elevações de 0,50 ponto. Para ela, a demanda precisa desaquecer mais do que o freio já imposto pela crise externa.

O ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore se alinha na terceira corrente. Ele confia na aprovação de alguma forma de resgate nos EUA capaz de evitar uma crise mais profunda. Mas isso não evitará uma desaceleração adicional do crescimento no mundo desenvolvido, com forte desalavancagem na intermediação financeira, encolhendo o crédito. E o Brasil certamente será afetado. Déficits crescentes nas contas correntes com a queda de investimentos diretos e em ações, ao lado da queda de preços de commodities, depreciam o câmbio real, o que desestimula os investimentos, que, aqui, são extremamente dependentes de importações. " Trunca-se, também, o estímulo aos investimentos produzido pelo crescimento do mercado de capitais. A queda dos preços internacionais de commodities acentua ainda mais estes movimentos " , diz relatório da consultoria de Pastore.

Como a depreciação cambial necessária para manter os déficits nas contas correntes em limites compatíveis com os ingressos de capitais não seria grande comparativamente ao que ocorria no passado, Pastore não antevê qualquer desequilíbrio externo preocupante. Mas, no seu entender, apesar da queda dos preços dos alimentos, persistem pressões inflacionárias derivadas do aquecimento da economia. Por isso, o BC deverá continuar elevando a Selic em uma velocidade menor, de 0,50 ponto por reunião. " Mas a desaceleração da atividade econômica, agora mais provável e mais forte do que antes do delineamento deste quadro internacional, devem encurtar o ciclo de elevação, e possivelmente tornar mais precoce o início do ciclo de redução da Selic, em 2009 " , diz.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico)

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