SÃO PAULO - O Copom tentou ontem recuperar as rédeas da política monetária, até então nas mãos do mercado financeiro, por meio de duas decisões aparentemente antagônicas. A primeira foi a de fazer um corte da Selic maior do que o consenso assumido pelos analistas.

Ao invés da redução de 0,75 ponto embutida na curva futura de juros, ele baixou a taxa em 1 ponto. Isso coloca o BC em tese " à frente " da curva. Ele retoma o poder de fazer e executar a política monetária. Se fosse somente esta, a decisão sinalizaria o prosseguimento da forte tendência de queda do juro futuro. Seria uma opção monetariamente expansionista. Mas não é essa a intenção dele. Pelo contrário. A segunda veio sob a forma da advertência colocada na nota pós-reunião, segundo a qual a " parte relevante " do ciclo de afrouxamento já foi feita ontem, e do placar divergente do encontro. Em ambos os casos, o efeito é monetariamente contracionista. O BC quer provocar uma leve alta nos juros futuros. Ontem, o contrato mais negociado, para janeiro de 2010, recuou de 11,21% para 11,15%. No início do ano a taxa estava em 12,17%. O mercado vinha inclinando negativamente a curva futura de juros, trazendo mais para baixo o juro real projetado para os próximos 12 meses. Este reduziu-se ontem a 5,95%. Dia após dia, o juro real batia recorde histórico de baixa. Isso claramente estava incomodando o BC.

O Copom vai conseguir cumprir as suas advertências? Se o seu objetivo principal é segurar a queda do juro futuro, conseguirá? Estas foram as primeiras indagações levantadas no início da noite pelos economistas. Uma parte dos analistas entende que com o alerta adicionado à nota e o escore dissonante, o Comitê pretendeu indicar que o próximo movimento de corte, a ser tomado na reunião do dia 11 de março (sem viés, a decisão de ontem descarta uma redução extraordinária antes disso) poderá ser de diminuição de 0,75 ponto e não outro de um ponto. Há divergências sobre esta interpretação. O Copom pode ser forçado pelos fatos a não concretizar seus interesses. Da última vez em que ele colocou no comunicado a informação de que tal providência era a " parte relevante " do ajuste pretendido foi na reunião de abril do ano passado, quando iniciou o ciclo de aperto. Na ocasião, a alta de 0,50 ponto não foi a maior parte do ajuste, foi apenas de 20%. Depois da alta de abril, elevou a Selic em mais dois pontos. A mesma imprevidência verbal pode ocorrer agora: a desaceleração da economia e a deflação podem atingir uma dimensão tal que tornarão o corte de um ponto feito ontem a porção menor do ajuste total. A magnitude do relaxamento iniciado ontem não depende do BC. Depende dos acontecimentos externos.

Para o economista-chefe do BES Investimento, Jankiel Santos, o BC passa a idéia de perseguir um redução total da Selic de 2,5 pontos. Sua intenção parece ser a de fazer a taxa retornar rapidamente ao patamar de 11,25% em que estava antes do início do ciclo de aperto, em abril de 2008. Para o economista, o Copom irá fazer mais um corte de 1 ponto na próxima reunião, depois reduzirá o ritmo para 0,50 ponto e fará uma pausa para observação dos resultados. Se essa for a intenção e se esse plano for " comprado " pelo mercado, o DI para janeiro pode subir hoje a 11,25%. O BC terá estancado o desconfortável (para ele) movimento declinante do juro. Mesmo que o mercado não assuma como seu esse cenário de corte total de 2,5 pontos, evidentemente o BC desmanchou ontem os cenários mais agressivos, entre 3,25 pontos e 4 pontos. Do ponto de vista neoliberal, a decisão terá sido brilhante: enquanto adulava politicamente as esferas desenvolvimentistas com um corte ilusoriamente vistoso, ao mesmo tempo puxava para cima o juro futuro. E o que conta monetariamente é este segundo efeito.

O mercado não é tão taxativo quanto o BC. Os próprios especuladores parecem estar esperando pelas primeiras medidas de Obama para só então decidir o rumo dos seus interesses. Esse clima de expectativa - mais curiosidade do que tensão - explica a falta de dinamismo nas posições " compradas " em dólar carregadas pelos investidores estrangeiros nos pregões de derivativos cambiais da BM & F. Eles começaram o ano com posicionamento " comprado " - que representa uma aposta contra o real - de US$ 13,17 bilhões. Nos primeiros pregões de 2009 esta aposta foi suavizada, mas a redução não foi muito acentuada, tanto que, na posição mínima do mês, no dia 6, ainda estavam comprados em US$ 11,53 bilhões. E do dia 13 até ontem a aposta não mudou muito oscilando entre US$ 12,5 bilhões e US$ 12,9 bilhões. A cotação do dólar chegou a cair pesadamente no início do mês, de R$ 2,33 para R$ 2,18, depois se recuperou até atingir R$ 2,38 no dia 15. Tanto as oscilações de preço quanto a manutenção pelos hedge funds, em patamares elevados, das posições compradas amparam-se na percepção de fluxo cambial ainda negativo neste começo de ano. Os números oficiais divulgados ontem pelo BC confirmaram esse sentimento. Nos onze primeiros dias úteis, a balança cambial amargou um déficit de US$ 2,19 bilhões. Isso porque o saldo positivo do prato comercial, de US$ 369 milhões, não conseguiu neutralizar a saída líquida de US$ 2,563 bilhões ocorrida pelo lado financeiro. Mas já é, de qualquer forma, uma melhora porque, em dezembro, tanto a parte comercial quanto a financeira exibiram déficits.

(Luiz Sérgio Guimarães | Valor Econômico )

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