O economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, não tem dúvida sobre qual deveria ser a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) na quarta-feira, ao final da reunião para decidir o próximo movimento da Selic, a taxa básica de juros, que está em 12,75%. Se eu pudesse votar, votaria por um corte de 150 pontos básicos (1,5 ponto porcentual), e não por 100; se o BC acelerar desse jeito, ele não estará cedendo à pressão política, mas simplesmente fazendo a coisa tecnicamente correta.

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Classificando a queda de demanda no mundo como "absolutamente enorme", Pastore diz que, se o BC for excessivamente cauteloso, a inflação vai cair abaixo da meta, ao custo de uma retração da economia pior do que poderia ser. A seguir, os principais trechos da conversa de Pastore com o Estado.

O que o sr. acha que vai acontecer na reunião do Copom?
Acho que o Banco Central vai acelerar o corte, de 100 para 150. Apesar de o Brasil estar melhor preparado para esta crise do que em episódios do passado, ela está produzindo uma contração de demanda agregada em todos os países que é absolutamente enorme. Ela tem um elevado grau de persistência, e através de vários canais filtra para dentro do Brasil.

O sr. poderia detalhar estes canais?
Bem, pelo comércio internacional, basta olhar como estão caindo as exportações brasileiras, junto com as exportações mundiais. Segundo o FMI, desde o início da crise em outubro, a queda já foi de 40%. No caso brasileiro, ainda somos mais prejudicados pela queda do preço das commodities. A demanda do investimento em capital fixo também sofre uma queda drástica, e acho que houve contração no quarto trimestre do ano passado. E a demanda das famílias também vem abaixo. Sobe o desemprego e há menos consumo.

E por que sua ênfase na persistência da queda da demanda?
Quando caiu a produção industrial em dezembro, houve uma interpretação de que seria basicamente um ajuste temporário, um ciclo de estoques que iria passar. Só que, com o passar do tempo, está se vendo que o grau de persistência é muito maior. Com esse hiato de produto que já abriu, se o BC não acelerar a queda da Selic, vai colher uma inflação que vai para baixo da meta e uma desaceleração do produto maior do que precisa. Se eu tivesse que votar no Copom, votaria por 150, e não por 100 pontos. Se o Banco Central acelerar desse jeito que eu falei, não está cedendo à pressão política, mas simplesmente fazendo a coisa tecnicamente correta.

Ea questão da rigidez da inflação no Brasil?
Acho que existe alguma inércia no Brasil maior do que nos Estados Unidos, mas há também um pedaço dessa inércia que é artificial. Nos Estados Unidos, o preço da gasolina é reajustado todo dia, e boa parte da queda do CPI (índice de preços) americano é a queda do preço da gasolina. Na nossa estimativa, o preço da gasolina no Brasil está 50% acima do preço internacional medido no Golfo Pérsico. Fizemos um exercício contrafactual em que o preço da gasolina no Brasil variaria com o preço internacional como nos Estados Unidos (não estou recomendando isso), e vimos que a nossa inflação em 12 meses estaria agora um pouco acima de 5%, e não um pouco abaixo de 6%, como de fato está. A previsão média do mercado para 2009 já está em 4,45%, e iria para muito mais perto de 4% com um corte de 10% na gasolina na refinaria.

O BC seguirá cortando os juros em outras reuniões de Copom?
O ciclo total é de 4 pontos porcentuais ou mais desde o seu início, e a minha expectativa é de que vamos chegar a um dígito esse ano. Mas não vamos fazer isso gradualmente, e sim depressa.

O sr. se preocupa com efeito inflacionário da desvalorizaçãodo câmbio?
O câmbio seria um problema se tivéssemos a conta corrente com um déficit crescente. Só que essa redução de atividade econômica está trazendo o déficit na conta corrente para baixo. O déficit mensal, em termos anualizados, saiu de US$ 35 bilhões para perto de US$ 17 bilhões. A remessa de lucros e dividendos atingiu uma velocidade anualizada de US$ 40 bilhões, e caiu para US$ 10 bilhões. Com a desaceleração, os lucros das empresas caem, e caem as remessas. O saldo comercial tinha que despencar, por causa da queda de exportação, mas a importação também está caindo e compensando um pedaço. Tudo isso vai levar a um déficit na conta corrente menor do que o do ano passado. Há, é verdade, a redução de ingresso de capitais, mas o BC está usando as reservas de forma prudente e moderada, e não vejo grande risco de uma depreciação cambial para bem acima dessa faixa de R$ 2,30 a R$ 2,40.

E a política fiscal?
Temos um bando de coisa que podemos fazer na política monetária, ao contrário de países que já estão com os juros praticamente em zero, como Estados Unidos e Inglaterra, e só têm a política fiscal ou o chamado relaxamento quantitativo (o BC injeta dinheiro comprando ativos financeiros da sociedade). Acho que o governo brasileiro deve manter os investimentos e cortar o seu consumo, abrindo espaço para o maior corte de juros possível.

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