O governo poderá cancelar concursos programados e até mesmo postergar aumentos salariais já concedidos aos funcionários públicos caso seja necessário ajustar o Orçamento do próximo ano a um cenário de desaceleração da economia. A informação é do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que ontem se surpreendeu com a volatilidade das bolsas de valores.

Em entrevista à Agência Estado, o ministro afirma que as bolsas vivem "uma verdadeira histeria", fala dos impactos da recessão nos Estados Unidos na economia brasileira e defende o socorro financeiro às empresas que enfrentam problemas cambiais porque apostaram em um dólar mais baixo. A seguir, os principais trechos da entrevista

Apesar da ação coordenada dos países, os mercados continuam voláteis porque o risco de recessão não está afastado.

Temos de separar o que está acontecendo no lado real da economia dessa histeria nas bolsas. Na economia real há problemas porque essa crise de confiança provoca falta de liquidez e de crédito nas empresas. Isso pode ser um grande problema. Aparentemente, não há racionalidade. Se o governo ou uma empresa se guiar por esse comportamento errático da bolsa, com certeza dará com os burros nágua.

Qual a perspectiva de essa crise arrefecer?

O que os governos estão fazendo vai ser suficiente para diminuir essa fase aguda da crise e restabelecer a confiança. Não sabemos em que medida e por quanto tempo haverá recessão. Em menos de um mês haverá eleições nos Estados Unidos e entrará um governo renovado, forte, com condições de agir, talvez com mais firmeza. Por um ano e meio a dois anos, teremos de conviver com o rescaldo da crise.

Como reduzir os impactos?

Nós não sabemos em que medida isso vai acontecer, mas o governo está trabalhando para reduzir esses efeitos. Vamos manter o crédito e manter os investimentos públicos, principalmente os do PAC.

Não será preciso um esforço fiscal adicional para enfrentar a crise?

O objetivo do governo é fazer um esforço fiscal de 4,3% do PIB (Produto Interno Bruto). Vamos ajustar as despesas às receitas. Se necessário, podemos não implementar alguns programas, postergar despesas, como os aumentos salariais dos servidores, e até cancelar concursos.

O Fundo Soberano pode virar gasto em 2009?

Propomos o Fundo Soberano com o conceito de ser uma poupança, feita em um momento de crescimento da economia para ser gasta em momento de maior dificuldade. Não achamos que esse momento seja o ano que vem, mas 2010 e 2011, porque a desaceleração não será imediata. Não dá para dizer o que deveremos fazer daqui a seis meses ou um ano.

Então, a revisão do Orçamento, em novembro, não fará um link com a crise?

Se tivermos informações seguras sobre o desempenho da economia e inflação, sim.

O Congresso fala de uma reserva especial de R$ 6 bilhões.

Normalmente, o Congresso refaz as contas e encontra brechas para aumentar a projeção de receita. Como é uma projeção, é muito difícil organizar e definir com total clareza.

Fala-se no governo que pelo menos 200 empresas estariam com problema cambial. O governo vai ajudar essas empresas?

Fala-se no governo ou na mídia? Não ouvi ninguém do governo falar isso. Eu li nos jornais. Também não sei se são 200 empresas. De fato, eu ouvi assim: algumas estimativas de que poderia ter 200 empresas com uma exposição grande em dólares e indagações sobre o que vai acontecer com elas. Se elas fizeram operações que não foram bem conduzidas, terão prejuízo. Ninguém pode ir lá e pagar esse prejuízo, menos ainda o governo. Mas isso também não quer dizer que se nós tivermos condições de prestar algum apoio financeiro, não ajudaremos.

Como?

Por meio da rede bancária. Se uma empresa precisa de capital de giro, de crédito para exportação e tem as condições de solicitar o empréstimo no banco privado ou oficial, é importante atender, mas dentro das regras de boa governança. Nós não temos interesse nenhum que essa empresa fique com prejuízo e muito menos que tenha ônus maior do que um prejuízo com uma operação, como ser obrigada a parar sua produção, demitir funcionários ou entrar em colapso financeiro. Dar apoio é importante e até uma obrigação.

A crise pode fazer o BC ser mais flexível com a taxa de juros?

Seria uma forma dolorosa de fazer o ajuste. Quando o BC atua com a política monetária para reduzir a demanda e desaquecer o mercado e, principalmente, para bater na inflação, isso já é considerado uma coisa com um certo trauma, com uma certa dor. Agora, a queda da atividade econômica pela crise é mais dolorosa e difícil de resolver depois. Nos temos a preocupação de manter a economia brasileira crescendo e a inflação controlada. Não vamos abrir mão de nenhum desses dois objetivos.

O cronograma continua o de trazer a meta de inflação de 4,5 % em 2009?

O BC tem uma meta que nós vamos cumprir. Evidentemente, o BC analisa o comportamento da economia. Este ano, por exemplo, o banco aceitou de certa forma que a inflação não chegaria aos 4,5% até porque ele teria que fazer uma carnificina para tentar fazer a meta convergir para 4,5%. O BC está acertando com a inflação, como tem conduzido muito bem a crise. Acho que temos que ter confiança e tranqüilidade que isso será resolvido.

O BC está com carta branca para atuar nessa crise?

O BC tem autonomia. Todo mundo sabe disso. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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