O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, emendou uma viagem a Washington, onde negociou com diretores do Banco Mundial (Bird) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com uma passagem de quatro dias no Japão. Conversou com ministros japoneses, presidentes de empresas e de grandes bancos.

O périplo terminou na noite de sexta-feira (manhã de sábado lá), quando o executivo concedeu, por telefone, rápida entrevista ao Estado, pouco antes de embarcar de volta ao Brasil.

Na bagagem, Coutinho trouxe o fechamento de um empréstimo de US$ 1 bilhão do BID e negociações avançadas para outro US$ 1 bilhão do Bird. No Japão, fechou acordo com o banco de desenvolvimento JBIC, mas, por cautela, o valor será anunciado apenas quando o negócio estiver sacramentado. "Foi uma viagem muito boa, muito produtiva", comemora Coutinho, um dos mentores do esforço governamental para manter a liquidez empresarial e minimizar os efeitos da crise internacional sobre a economia brasileira. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Desde quando estava sendo negociado o empréstimo do JBIC?

O relacionamento do BNDES com o Japão é muito antigo. Mantemos contato permanente. O que acontece agora é que eles estão em processo de mudança. O JBIC vai ser absorvido por outra instituição. Isso muda um pouco o quadro de entendimentos com eles. Mas, em geral, as conversações são muito positivas. Estamos em conversações para que a escala de contribuição financeira que o JBIC tem no Brasil aumente também.

O resultado, então, foi positivo?

Minha viagem aqui não estava só ligada aos contatos com o JBIC. Fui convidado pelo governo japonês num contexto muito afirmativo de que, neste centenário da imigração japonesa, as relações entre Brasil e Japão deveriam ser renovadas e ampliadas. Elas foram muito intensas e muito importantes nos anos 70, quando os japoneses participaram de projetos importantes no Brasil. Depois, houve a crise brasileira da dívida e as sérias dificuldades com a implosão da bolha imobiliária no Japão nos anos 90. Agora, com o Brasil numa situação muito mais favorável, e o Japão com muito capital e potencial de crescimento baixo, é natural que olhem para oportunidade de investimento fora. O Brasil surge como uma economia que pode oferecer projetos de retorno atraente, em áreas que os japoneses têm muita competência.

Projetos tecnológicos?

Tanto de tecnologia avançada como equipamentos. Os japoneses são muito competentes em equipamentos para ferrovias, para energia, são grandes exportadores de bens de capital. Há um interesse grande deles em etanol, existe muito interesse em reforçar a agricultura e a exportação de grãos e alimentos do Brasil. Eles dão muito valor à questão da segurança alimentar.

Tudo isso mesmo neste momento de incerteza, com a crise?

Embora o mercado financeiro esteja muito machucado, o sistema financeiro japonês está muito sólido, porque os grandes bancos têm uma parte de depósito muito estável. É uma sociedade muito rica, tem muita conta de poupança, as famílias não mexem muito nos recursos. Isso dá uma solidez, uma liquidez muito grande ao funding dos bancos japoneses. Tanto é que o Banco de Tóquio-Mitsubishi (o maior do Japão) é um dos envolvidos na compra do Morgan Stanley. O lado de investment banking deles, que era mais conservador, se fortaleceu. Estão muito bem e demonstram muito interesse na economia brasileira.


Fecharão negócios agora, em meio à crise?

Acho que neste momento, agorinha, enquanto essa crise está no ápice, obviamente não. Mas dentro de pouco tempo o BNDES poderá estruturar alguns fundos de investimento em equity (participação em empresas) e obter participação com os grandes bancos japoneses. É um projeto que já vínhamos estudando, mas, como a crise se agravou, não íamos dar murro em ponta de faca. Minha viagem aqui permitiu que eu tivesse conversas de altíssimo nível com os presidentes desses bancos. Senti que temos clima para conversar um pouco mais à frente. Agora vamos ter de fazer um esforço para atrair esse capital de forma mais ativa.

Isso tudo além do JBIC?

Além disso tem o JBIC, o sucessor dele que a gente espera que continue apoiando o BNDES. Minha viagem aqui, embora tenha acontecido num momento muito tenso no mundo inteiro, foi muito produtiva, muito boa. Em Washington, conseguimos fechar com o BID US$ 1 bilhão, temos avançado muito com o Banco Mundial outro R$ 1 bilhão, e já estamos falando sobre 2009 com essas instituições.

O Brasil é visto com oportunidade de investimento na crise?

Visto daqui de fora há, sim, uma confiança na economia brasileira, uma percepção positiva acerca do Brasil. É claro que um ou outro faz umas perguntas... Mas eu pude responder. É claro que não adianta a gente querer falar que a economia brasileira é imune à crise, que todo mundo sabe que não é. Vai reduzir um pouco a taxa de crescimento, mas ainda é uma economia que, no contexto global, tem muito mais condições de crescer do que outras.

O sr. acha que o crescimento do PIB será reduzido para quanto?

Acho que temos condições de crescer a mais do que 3% em 2009. Estou mais perto de 4% do que de 3%. E o futuro dirá isso. Vamos nos empenhar muito para que a economia brasileira sofra o mínimo de sacrifício no crescimento do ano que vem e no seguinte.

O governo teria encomendado ao BNDES um programa especial de capital de giro. Como será?

Isso estava sendo discutido com meu vice-presidente. Esse programa está pronto. Na segunda-feira (hoje) terei uma reunião com o ministro Guido (Mantega, da Fazenda) para decidir. Estamos a postos para ajudar. Ainda precisamos bater o martelo com o ministro para saber se ele quer ou não mobilizar esse programa. Vai depender muito de como o sistema bancário estiver reagindo. Ainda não tive oportunidade de conversar com o Banco Central para saber como o crédito está reagindo. Essa é uma avaliação conjunta e o governo mobilizará essas linhas se considerar que não está sendo suficiente o crédito privado. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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