O alemão Jan Hatzius, economista-chefe para Estados Unidos do banco Goldman Sachs, integra um time de analistas conhecido pelo pessimismo. Nesta entrevista, concedida ontem em São Paulo, ele faz jus à fama.

"Haverá recuperação (nos EUA), mas será lenta. Vai demorar para que o banco central (Fed) e os responsáveis pela política fiscal troquem a preocupação com o desemprego pela preocupação com a inflação."

Hatzius veio ao Brasil para reunir-se com clientes. Entre segunda-feira e ontem, teve encontros em São Paulo e no Rio de Janeiro. Aproveitou parte do fim de semana na capital fluminense, uma experiência, segundo diz, muito agradável. "Em Nova York, fazia muito frio." Hatzius regressou para a cidade ontem à noite.

Qual sua visão geral sobre a economia americana hoje?

Haverá recuperação, mas será lenta. Vai levar um bom tempo para que o mercado de trabalho realmente apresente melhora. Vai demorar para que o banco central (Fed) e os responsáveis pela política fiscal troquem a preocupação com o desemprego pela preocupação com a inflação. Vai demorar para haver uma alta dos juros nos EUA.

O sr. espera uma alta do juro nos EUA quando?

Não esperamos uma alta nem em 2011. Mas tudo dependerá do desempenho da economia.

O desempenho foi muito bom no último trimestre de 2009.

De fato, a economia cresceu 5,9% no último trimestre do ano passado (em termos anualizados). Mas dois fatores estimularam esse crescimento. O primeiro foi a política fiscal e o segundo, o ciclo de estoques. Isso não vai ocorrer em 2010 com a mesma intensidade de 2009.

Qual o ritmo agora?

Em torno de 2%. Na média, a economia americana vai crescer 2% por trimestre em 2010.

Quando os EUA voltarão a crescer de acordo com o potencial?

Em 2011. Acreditamos que, em 2011, o crescimento vai ficar acima do potencial e o desemprego começará a cair.

O pior da crise, nos EUA, ficou para trás mesmo?

Sim. Há um sentimento nos mercados financeiro, de títulos e de ações de que as condições estão muito mais normais hoje do que seis meses, um ano e um ano e meio atrás. O setor que ainda sofre pressão é o bancário. A disposição das instituições de oferecer crédito para seus clientes ainda é limitada.

O sr. diz que os EUA vão crescer abaixo do potencial por algum tempo. O que isso significa para o mundo?

As pessoas superestimam a ligação entre o crescimento do mundo e dos Estados Unidos. Mesmo com um crescimento americano na faixa de 2%, acho possível que os países que não tiveram problemas com desequilíbrios, notadamente os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), sustentem bem o crescimento global. Acreditamos que o crescimento do mundo vai superar as estimativas atuais, a despeito de estarmos mais cautelosos em relação à expansão dos EUA. Os Brics são guiados pela demanda doméstica.

Os EUA podem adotar medidas práticas para impelir os chineses a valorizar o yuan?

A decisão sobre o que fazer com a taxa de câmbio chinesa é estritamente do governo da China. O governo americano sabe disso. Nós acreditamos que a China, por seu próprio interesse, vai valorizar sua moeda em 2010 e também em 2011. Acreditamos que a política de valorização gradual da moeda será retomada. De qualquer maneira, o governo dos EUA pode tomar alguma atitude prática, mas que seria contraproducente.

O Índice Dow Jones da Bolsa de Nova York acumula nos últimos 12 meses valorização de 40%. O desempenho condiz com a realidade atual da economia?

Sim. Basicamente, em 2009, as ações foram severamente desvalorizadas. As pessoas esperavam a segunda Grande Depressão. Agora, estamos em um território mais próximo do neutro. Não estamos perto de outra bolha, mas tampouco estamos em um momento de preços subvalorizados.

Qual o principal risco para a economia global hoje?

O G-3 (EUA, Europa e Japão) retirarem muito cedo os estímulos fiscal e monetário. No mundo emergente, o risco é o de superaquecimento. Há sinais disso em muitos dos Brics. É por isso que meus colegas projetam uma alta expressiva da taxa de juros no Brasil (o banco prevê um ciclo total de elevações da Selic de 3,75 pontos, para 12,5% ao ano). Na China, nossa projeção é de um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 11,4% para este ano, que é um ritmo muito, muito rápido.

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