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#145;O juro cairá mais rápido se o governo for paciente#146;

Quando o economista Arminio Fraga foi indicado para comandar o Banco Central (BC), no início de 1999, críticos disseram que o então presidente Fernando Henrique Cardoso iria colocar uma raposa para tomar conta do galinheiro. É que Arminio, antes de aceitar o convite, trabalhava para o megainvestidor George Soros.

Agência Estado |

Logo, seria um fiel representante dos banqueiros, que, por definição, só pensam nos próprios lucros.

O tempo passou, Arminio fez uma gestão elogiada por muitos dos antigos detratores e agora, 10 anos depois, acaba de escrever um relatório em que propõe medidas cujo objetivo, em português claro, é pôr ordem no mercado financeiro global.

O trabalho foi escrito em parceria com o lendário ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) Paul Volcker (agora conselheiro do presidente Barack Obama) e por Tommaso Padoa-Schioppa, ministro das Finanças da Itália entre 2006 e 2008. "Reforma Financeira - Um Sistema para a Estabilidade Financeira" levou seis meses para ficar pronto e foi publicado como um documento do chamado Grupo dos 30, do qual Arminio é vice-presidente.

Trata-se de uma organização privada e sem fins lucrativos, fundada em 1978 com objetivo de debater assuntos econômico-financeiros em âmbito global. Além dos três autores do relatório, o grupo tem como integrantes ex-ministros de Finanças e ex-presidentes de bancos centrais. Um deles é o diretor do Conselho Econômico Nacional do governo Obama, Lawrence Summers.

O texto é estruturado em torno de quatro recomendações-chave: 1) eliminação das lacunas na supervisão e regulação prudencial; 2) melhora na qualidade e efetividade da regulação e supervisão prudencial; 3) fortalecimento das políticas institucionais, com ênfase nos padrões de governança, gerenciamento de risco, capital e liquidez; e 4) maior transparência dos mercados e dos produtos financeiros.

Arminio reconhece que, se o plano for posto em prática da forma como está proposto, vai amarrar o sistema. "Essa é a intenção. Me parece relativamente óbvio que, do jeito em que o sistema estava (e ainda está hoje, de certa forma), o resultado não estava bom", diz.

Nesta entrevista, Arminio também fala sobre a conjuntura no Brasil e no exterior. Por ser ex-presidente do BC e gestor no mercado - dirige a Gávea Investimentos -, não comenta o corte de um ponto porcentual da taxa básica de juros, promovido na semana passada pelo Comitê de Política Monetária (Copom). Mas avisa: "Se o governo tiver um pouquinho de paciência, o Banco Central pode surpreender quanto a (novos) cortes do juro."

O fato de Paul Volcker ser um dos autores do relatório e integrar o governo Obama ajuda?

Ter o Volcker, independente se dentro ou fora do governo, faz com que surja um certo interessante naquilo que está escrito.

Não há o risco de que regras demais prejudiquem a eficiência do mercado, como muitos especialistas têm argumentado?

A primeira impressão pode ser que o que recomendamos vai amarrar o sistema. De fato vai. Essa é a intenção. Também pode dar a impressão de que haverá algum custo em termos de eficiência, criatividade. Pode até ser que sim. Mas o custo de você ter um sistema propenso a bolhas e a grandes quebras é enorme. Me parece relativamente óbvio que o jeito em que o sistema estava - e ainda está hoje de certa forma -, o resultado não estava bom. De que adianta criar bolha de consumo, com hipotecas criativas, nas quais as pessoas não precisam de renda, de documentação, e chega na hora H quebra todo mundo, cria um mal-estar maior e gera desemprego? Um sistema hiperalavancado é muito bom quando as coisas vão bem. Mas, quando vão mal, é uma fragilidade imensa. É bacana ter derivativos para tudo o que é tipo de operação, um sonho antigo dos economistas. Será que isso realmente cumpre uma função social e econômica? Não.

Os mercados voltaram a ficar nervosos com o sistema financeiro americano. Isso o preocupa?

Temos hoje um sistema global descapitalizado e algumas sinalizações dadas nos últimos dias levaram ao pânico (nos mercados) no dia da posse de Obama. É, sem dúvida, um problema. De um lado, há bancos com carteiras problemáticas e mal capitalizados. De outro, especialmente nos EUA, há tomadores de crédito passando por um momento difícil, pois o desemprego está aumentando e o valor das garantias das hipotecas despencou. Então, lá há também um problema do lado da demanda por crédito. Não há, portanto, uma solução que possa vir só do lado dos bancos. (Terça-feira) havia um receio de uma nacionalização (estatização) mais ampla do sistema.

O sr. acredita na hipótese de estatização do sistema?

Já estão estatizando no mundo inteiro, implícita ou explicitamente. A questão é se vai radicalizar.

O sr. vê isso?

Não sei ainda, está difícil de ver. Continuamos a caminhar nessa direção. Não acho que seja intenção de nenhum desses governos radicalizar, mas, às vezes, as circunstâncias podem levar a isso.

Como o sr. avalia o lado real da economia americana hoje?

Infelizmente, a curto prazo, o que vemos é uma desaceleração muito violenta e sincronizada.

E o Brasil?

O Brasil faz parte do mundo. Tem uma desaceleração menos violenta, porque é menos aberto e não tem problemas na área financeira. O sistema é capitalizado, muito bem provisionado. Mas as commodities caíram, aumentou a aversão ao risco.

Qual a projeção do sr. para o crescimento em 2009?

Não gosto de produzir um número, mas se pode dizer que será algo próximo do consenso hoje, cerca de 2%. O que acho mais interessante não é o nível, mas a faixa de risco. Pode ser 3%, mas também pode ser bem menos.

Por que tudo piorou tão rapidamente no Brasil?

Como as commodities permaneceram firmes até o fim de junho, o Brasil viveu um período de ilusão. Além disso, como o Brasil era o favorito (dos mercados), sofreu mais quando veio a grande confusão. Anos atrás, ouvi o então ministro da Fazenda do México (hoje presidente do BC), Guillermo Ortiz, falar em uma reunião que tinha duas notícias em relação a seu país. Uma boa e outra má. A boa é que, pela primeira vez na história recente do país, eles estavam vivendo um ciclo econômico normal. Ou seja, não havia crise - o México costumava ter uma crise a cada seis anos. A má notícia era que o país estava em recessão.

E o Brasil, está entrando em um ciclo econômico normal?

Estamos vivendo um ciclo mais normal. Cabe ao governo - e ao BC - tentar suavizar, mas é impossível evitar totalmente.

Até onde deve ir essa suavização?

Infelizmente, na área fiscal, apesar do superávit primário, nós abusamos, nos últimos 10 ou 15 anos, do direito de crescer o gasto. Embora nossa relação dívida/PIB líquida seja de 35%, a bruta está em 55%. Não é tão baixa quando se leva em conta o nosso juro. Deve-se tomar cuidado antes de fazer alguma coisa. Não cabe exagerar, inclusive no crédito. Se o governo tiver um pouquinho de paciência, ao longo do tempo, o BC pode surpreender quanto a cortes do juro. É um jogo de paciência que seria muito bom para nós. Lá na frente vem uma recompensa muito grande.

Qual o seu cenário para o juro?

Há muita incerteza para eu colocar todas as minhas fichas em um cenário só. O que está aí faz sentido. O mercado aposta que o juro vai cair, fala-se em 11% (no fim do ano). O mercado vê hoje quedas (do juro) ao longo de 2009, mas não em 2010. Se o governo for prudente, as quedas podem continuar e ir além do que o mercado projeta hoje.

O que é ser prudente?

Não gastar muito, começar a fazer algumas reformas que precisam ser feitas e ter um pouquinho de atenção com questões de longo prazo mais estruturais.

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