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#145;Não faz sentido um juro tão alto#146;

A economia brasileira está sendo prejudicada pelo abuso de alguns bancos no campo do crédito e o Banco Central (BC) não deveria tolerar esse comportamento. A crítica não é de nenhum sindicalista, economista de esquerda ou consumidor que tenha se sentido esfolado pelos recentes aumentos no custo dos empréstimos.

Agência Estado |

Seu autor é Roberto Troster, que foi economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) por quase seis anos.

De acordo com pesquisas de várias entidades de acompanhamento econômico, nas últimas semanas o setor financeiro aumentou os juros dos empréstimos e reduziu o prazo de pagamento. Troster avalia que não há razões para que os bancos tenham subido tanto as taxas de juros e acha que eventuais abusos devem ser punidos pelo governo.

Troster deixou a entidade há pouco mais de dois anos, após criticar publicamente algumas medidas do governo que afetavam o setor. Do outro lado do balcão, tornou-se um crítico freqüente das instituições financeiras, embora sua consultoria, a Integral Trust, tenha bancos como clientes. Ele nega ter mágoa da entidade. "Tanto na Febraban quanto fora da Febraban, sempre preservei minha independência", diz ele, nesta entrevista ao Estado.

O crédito está voltando?

Os indicadores mais recentes estão menos pessimistas do que os de um mês atrás, mas ainda é cedo para indicar uma retomada. Há bancos que reduziram as suas estruturas de distribuição de crédito. É uma área que se desmonta rapidamente, mas demora para montar. O crédito está mais caro e escasso. Neste ano, o crédito para grandes empresas cresceu a uma taxa que é o dobro das pequenas. Há crédito para grandes tomadores, mas, para os pequenos, não. O impacto disso é muito ruim no consumo e no investimento. Se você não tem crédito, não vende.

Por que alguns bancos não emprestam?

É uma visão imediatista. Não faz sentido emprestar com taxas tão altas e por prazos tão curtos. Estão visando ao lucro no curto prazo, em vez de lucros sustentáveis no médio e longo prazos.

Trata-se de não querer ou é resultado da piora da conjuntura?

A conjuntura piorou, mas também aproveita-se da falta de liquidez para emprestar a taxas desproporcionalmente mais altas. Não há justificativa para aumentarem as taxas na velocidade em que aumentaram.

O BC pode adotar mais medidas para estimular os empréstimos?

Há três coisas. A primeira é fazer o dinheiro queimar na mão dos bancos. O BC fez muito bem com a história do compulsório a prazo, que não seria remunerado. A bem da verdade, o compulsório devia ser eliminado. A segunda é a tributação. Este governo elevou a tributação sobre o crédito. É preciso baixar, eliminar temporariamente. A terceira é coibir abuso.

Como combater os abusos?

Em alguns países, como a Inglaterra, o Banco Central faz isso; é chamado de persuasão moral, é a forma mais simples e deveria funcionar. O ponto é que não pode haver tolerância com abusos não justificados. Há banqueiros querendo emprestar, há dinheiro, mas registros de exageros no preço. Quem sofre é a economia. Já tem gente postergando investimentos, empresas adotando férias coletivas.

O que está na raiz desses problemas?

As pessoas estão olhando para a questão errada, o número de bancos. O correto é olhar para o comportamento na ponta. Alguns segmentos, algumas poucas instituições abusam. Aproveitam uma situação de mercado para abusar.

O que é olhar para a ponta?

Ver se há alguma justificativa para as taxas em determinadas situações. Alguns segmentos são competitivos no Brasil. Os spreads para grandes empresas, por exemplo, são comparáveis aos internacionais. Os compulsórios e a tributação não fazem sentido no País. Aqui, quando a pessoa demanda recurso, ela precisa pagar ainda mais em impostos diretos, como IOF, e indiretos, com os compulsórios. O que se deve tributar é o consumo e não o crédito.

O governo deveria acompanhar as taxas na ponta, então, e, se não houver justificativa, intervir?

Sim, é isso.

A mudança no cenário não justifica uma cautela maior por parte dos bancos?

Antes do agravamento da crise, eu já havia escrito sobre o aperto que estava havendo aqui dentro. O sistema brasileiro é fechado. Temos um sistema de poupança importante. Boa parte do sistema financeiro da América Latina é dolarizado. A gente quase não tem isso. Portanto, não dependemos do resto do mundo. Há muitos bancos pequenos e médios que querem emprestar, mas não têm a matéria-prima, que é dinheiro. Por isso, têm sido obrigados a demitir funcionários.

Não ficou perigoso para os bancos emprestar?

Eles têm de ser mais cautelosos, claro, mas temos de ver a proporção. O crédito estava crescendo a 30% ao ano, com uma economia avançando 5%. Em setembro, o crédito para pessoas físicas até R$ 5 mil teve retração. Não faz sentido isso. Ou seja, estão pagando os juros e amortizando, já. É um senhor aperto do crédito. Ser mais precavido é uma coisa, aumentar as taxas desproporcionalmente é outra.

O fato do sr. ter sido economista-chefe da Febraban tem alguma influência em sua análise?

Não. Sempre fui objetivo. Tanto na Febraban quanto fora da Febraban. Sempre preservei minha independência. Foram cinco anos e meio na Febraban, oito na ABBC (Associação Brasileira dos Bancos Comerciais). Ainda tenho vários clientes bancos em minha consultoria. A demora em comprar carteiras não era tão longa antes. Os limites de crédito para bancos pequenos foram cortados. São as mesmas instituições financeiras, a mesma coisa. Por que as taxas do cheque especial subiram tanto? Não mudou tanto a economia para justificar.

Qual o impacto na economia?

É recessão. Já há projeções para o crescimento do ano que vem na faixa de zero. Antes, estimavam 4%. O impacto é muito grande. Se você quebra o crédito, começa o efeito dominó. Temos que evitar isso a qualquer custo. O Banco Central tem atuado, mas ainda pode fazer mais. O crédito tem um papel importante neste momento da história, pode ser o herói ou o vilão da crise.

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