O deputado americano Brian Baird, democrata eleito pelo Estado de Washington, é muito claro: o mundo vai ter de engolir, pelo menos provisoriamente, as emendas buy American. Ele próprio declara que não teria votado na quarta-feira a favor do pacote de estímulo fiscal de US$ 819 bilhões do presidente Barack Obama se este não contivesse aqueles dispositivos protecionistas, que proíbem a aquisição de ferro e aço estrangeiros para os projetos de infraestrutura contidos no plano.

Defensor da ideia de que a fabricação doméstica de aço é fundamental para a segurança dos Estados Unidos, Baird diz que o povo americano e seus representantes no Congresso não aprovariam o pacote sem as cláusula buy American. Para ele, não há como convencer os americanos a aumentar a dívida nacional, e a gastar o dinheiro do contribuinte, para criar empregos no exterior. Baird diz que há dois fabricantes de aço no seu distrito e acrescenta: "Mas eram três, esse é o meu ponto". O parlamentar falou ao Estado e ao jornal O Globo durante o Fórum Econômico Mundial em Davos. A seguir, a entrevista:

Como o sr. avalia a reação internacional contra a cláusula buy American no pacote?

O propósito do plano é o de colocar os americanos de volta ao trabalho para reimpulsionar a economia. E vai ser bastante difícil vender ao povo americano que deveríamos fazer isso comprando aço produzido no exterior. A produção doméstica de aço é fundamental para a segurança de qualquer economia. E, se vamos criar empregos com esse pacote de estímulo, precisamos criá-los primordialmente no país. O contribuinte americano não vai apoiar se dissermos que vamos contrair uma dívida enorme para comprar produtos feitos no exterior e criar empregos em outros países.

Mas e se todos países começarem a tomar medidas protecionistas?

Até Adam Smith, grande defensor do livre comércio, acreditava que há áreas essenciais para a segurança doméstica, que precisam de algum tipo de proteção. Minha opinião é de que a indústria pesada, como a produção de aço, é uma dessas áreas. Mas você não vê nessa lei (do pacote) uma ampla refutação dos acordos comerciais.

Os outros países não podem reagir, não pode haver uma guerra comercial?

Se fizessem isso, seria um erro terrível. Não é do interesse da Europa ou do resto do mundo, ou do Brasil, ver a economia americana continuar no atual estado. Espero que o resto do mundo compreenda. Caso seu governo estivesse dizendo que iria comprar aço produzido nos Estados Unidos, como forma de criar empregos para brasileiros, e o brasileiro médio perguntasse como vão criar empregos no Brasil comprando aço nos Estados Unidos?, esta seria uma legítima pergunta política.

Mas, na prática, o sr. acredita que a cláusula buy American vai ser contestada na OMC?

Pode ser, em teoria, mas seria um erro. Eu não vejo isso como retorno ao protecionismo. As pessoas precisam reconhecer que as circunstâncias são únicas. Estamos experimentando perdas de 60 mil, 70 mil empregos por semana. E se as pessoas dissessem agora que os americanos estão tentando botar seu povo de volta ao trabalho, vamos entrar com recursos na OMC, acho que provocariam mais reação contrária do que resultados construtivos.

Mas há ou não, na sua visão, descumprimento de regras da OMC no pacote?

No setor de transporte, pelo menos, sempre mantivemos, tanto quanto eu sei, uma posição de que nós podemos manter algumas cláusulas "buy American".

Há uma certa preocupação do mundo quanto à posição do presidente Obama em relação ao comércio internacional.

Entendo o medo, mas acredito que é mais provável que vocês vejam uma agenda moderadamente pró-comércio neste governo, mais do que se pensa. Mas não estou falando em nome do governo. Se tentarem jogar o governo Obama contra a parede nessa questão, a primeira coisa que eu diria é que não existem os votos sem isso. Se você acredita que é preciso um pacote de estímulo para ajudar a economia americana e global, vai ter de engolir, pelo menos temporariamente, a cláusula "buy American". As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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