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#145;Estamos aqui para ganhar dinheiro#146;

Nove meses depois de dar entrada na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a Azul Linhas Aéreas sai hoje do papel. Fruto de um investimento de US$ 200 milhões, esta é a quarta empresa aérea de David Neeleman, americano nascido no Brasil que gosta de dizer que seu jeito de fazer negócios remete à experiência que teve na adolescência como missionário mórmon em favelas do Nordeste.

Agência Estado |

Apesar do passaporte brasileiro, ainda se espanta com algumas particularidades do País. "As companhias americanas não ganham tanto dinheiro quanto se ganha no Brasil", diz ele. "E é por isso que estou aqui."

Famoso por sua síndrome de déficit de atenção, David parece estar sempre com pressa. Como ainda não conseguiu convencer a mulher ou um dos nove filhos a se mudar de Connecticut para Alphaville, em São Paulo, David se divide. Fica no Brasil de terça a quinta-feira. E foi numa quinta-feira corrida - à noite ele iria para São José dos Campos para a festa de entrega do primeiro jato encomendado da Embraer, evento que deixou antes do fim para pegar um vôo de volta para casa - que o empresário recebeu a reportagem do Estado para a seguinte entrevista.

Em 2008, o setor aéreo perdeu US$ 5 bilhões e 31 empresas fecharam as portas. A Azul é uma das poucas que estão nascendo... Não somente nascemos, mas nascemos com mais dinheiro que qualquer outra empresa na história da aviação.

Mas é um bom momento para iniciar uma empresa, com toda a crise global?


O Brasil é bem diferente, o mercado aqui não está desenvolvido. Acreditamos que esse mercado tem de ser três ou quatro vezes maior. Talvez agora com a crise ele será somente duas vezes maior. Mas estamos falando de Campinas, por exemplo, uma região com um PIB maior que o do Chile e apenas 19 vôos por dia.

A diretora da Anac, Solange Vieira, falou na semana passada em um crescimento de 3% a 5%. Para um setor que vinha crescendo acima de 10% ao ano...

Eu sei uma coisa com certeza: entre Campinas e Salvador, o mercado vai crescer 400% em comparação com o que se tem hoje. Vai ter muito mais gente viajando. Por quê? Se você mora em Campinas e quer ir a Salvador, tem de ir para Guarulhos, de carro ou de avião, para fazer conexão. Não me importo com o que a Solange fala sobre o Brasil inteiro, só me importo com o que está acontecendo em nossas rotas. Se estivéssemos falando de mercados desenvolvidos, tudo bem. Eu talvez tivesse de roubar passageiros, baixar tarifas.

Dias antes de a Azul começar a vender passagens, a concorrência anunciou promoções para as mesmas rotas de vocês. A guerra tarifária já começou?

Estamos aqui para ganhar dinheiro. Não estamos aqui para fazer festa e gastar US$ 200 milhões. Na rota de Salvador para Campinas, nossa tarifa mais barata é de R$ 209. Nossa tarifa mais alta é R$ 999. Entre essas duas teremos outras tarifas, com algumas restrições, como antecedência de compra. A Gol colocou uma tarifa de R$ 51, mas exige 10 dias no destino. A gente não vai fazer isso. Isso é só uma promoção, é besteira.

Qual a diferença entre montar uma companhia aqui e nos Estados Unidos, em termos de burocracia, custo e concorrência?

Aqui tem custos mais altos, como combustível, por causa do imposto. Mas tem outras coisas. As empresas brasileiras ganham muito mais dinheiro que as dos EUA. Veja o preço das ligações. Eu queria colocar as pessoas para trabalhar de casa no nosso call center, mas não podemos porque os custos das ligações são maiores que o salário. É uma pena. As empresas de telefonia aqui ganham muito mais do que lá. A razão de estarmos aqui é que as tarifas de aviação são as mais altas também.

E o comportamento dos concorrentes? Hoje (quinta, dia 11), TAM e Gol fizeram uma representação formal na Anac em que dizem que a Anac está privilegiando a Azul.

Eles estão dizendo que somos privilegiados? Esses são os caras que têm 95% do mercado e bastante slots em Congonhas. Nós estamos aqui porque acreditamos que é preciso uma terceira empresa no Brasil, maior que OceanAir e Trip. O problema é que Gol e TAM têm a mesma malha. E eu concordo com eles, não precisamos de mais um como eles.

A reação da concorrência quando a Jetblue nasceu foi a mesma que Gol e TAM estão tendo aqui?

Sempre tem reação, não é diferente. Uma coisa que é diferente é que não estamos querendo voar nas mesmas rotas deles. Há muitas cidades onde quase não têm serviço. E nós podemos ter mais freqüência nessas rotas.

E a burocracia?

Eu acho que as autoridades aeronáuticas estão muito cautelosas por causa do caos aéreo. Para liberar um horário de vôo, precisa da assinatura de dez pessoas de diferentes órgãos. Se existe a chance de um vôo novo atrasar uma vez em 30, eles não aprovam. O governo está respondendo para a opinião pública.

O senhor acredita que as restrições em Congonhas, com a redução do número de vôos, foi uma resposta para a opinião pública?

Sim, o acidente foi terrível e, com o trauma, eles tinham de fazer alguma coisa. O aeroporto de La Guardia, em Nova York, tem duas pistas cruzadas e eles fazem 75 operações por hora. Aqui em Congonhas, com duas pistas paralelas, fazemos 34. Já foi 54 e baixou por causa do acidente, que não tinha nada a ver com isso. É uma questão de tempo para liberar Congonhas.

A disputa pela abertura dos aeroportos Santos Dumont e Pampulha colocou a Azul em confronto com dois governadores bastante poderosos do Brasil, Sérgio Cabral e Aécio Neves. Isso te preocupa?

Quando começamos a Jetblue, a prefeita do Queens não nos queria lá, e ficou muito brava conosco. Dois anos depois, com 4 mil pessoas trabalhando e 50 aviões, ela me chamou e falou: isso é muito bom para nossa cidade. A malha que queremos fazer no Santos Dumont é para cidades que não têm serviço nem para o Galeão. Navegantes, por exemplo,tem 400 pessoas que vão para São Paulo e 12 que vão para o Rio. Ninguém vai para o Rio porque não tem vôo direto. É uma lei de aviação: se tem vôo direto, aumenta o mercado.

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