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#145;Empresário brasileiro desconhece a China#146;

A imposição de barreiras não é o caminho para defender a indústria brasileira da concorrência chinesa. Os fabricantes nacionais têm de se modernizar e, eventualmente, abandonar os setores nos quais o país asiático é muito competitivo, afirma o novo embaixador do Brasil em Pequim, Clodoaldo Hugueney, de 65 anos.

Agência Estado |

Na primeira entrevista desde que assumiu o cargo, há um mês, o diplomata reconhece que falta agressividade na promoção comercial de produtos brasileiros na China, onde há um enorme mercado a ser explorado. Segundo ele, o desconhecimento leva muitos empresários brasileiros a concluírem, de maneira equivocada, que o país asiático só importa bens primários. "Na verdade, o que a China menos importa é matéria-prima. A maior parte das importações chinesas é de bens manufaturados. Do Brasil, não, mas da Ásia, da Europa, dos Estados Unidos", disse Hugueney ao Estado.

Ex-embaixador do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) e com uma carreira de 45 anos no Itamaraty, o diplomata assumiu uma embaixada desfalcada e conta com apenas cinco diplomatas para cuidar da relação com o que hoje é o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Apesar disso, se declara otimista e espera em breve recompor a lotação completa, de dez diplomatas, o que deixará a representação do Brasil na China de um tamanho comparável ao da Embaixada da Venezuela. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual é hoje a importância da China para a política externa brasileira?

A China hoje é uma potência global do ponto de vista econômico e tem uma influência crescente. A manutenção do crescimento na China é fundamental para preservar o crescimento no mundo porque as grandes economias desenvolvidas não vão crescer. Isso tem uma importância extraordinária para o Brasil, pela exportação do Brasil de produtos básicos, como minério de ferro, cujos preços vêm caindo. O que sustentará o mercado nos próximos anos é a demanda chinesa.

A importância da China se reflete na representação diplomática do Brasil em Pequim?

Nós temos com a China uma relação de grande importância. O presidente Lula esteve aqui várias vezes, e não só em Pequim, mas em outras cidades, temos contatos no mais alto nível. A China é o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Mas há ainda um desconhecimento muito grande, tanto do Brasil na China como da China no Brasil, e a embaixada tem dimensões reduzidas no contexto do novo papel da China no mundo.

Quantas pessoas a embaixada tem hoje? Seu tamanho é comparável à de que outro país?

A embaixada hoje sou eu, o ministro-conselheiro e quatro diplomatas. O número de funcionários é um pouco inferior a 40. É comparável a de um país latino-americano pequeno ou médio. É um pouco menor que a Embaixada de Portugal aqui, entre os países europeus. Os países asiáticos têm representações muito maiores em Pequim. A Embaixada da Índia tem 20 diplomatas. A embaixada dos Estados Unidos tem 1.500 funcionários e a do Canadá, 320.

Quando se olha 2004, o ano da visita do presidente Lula à China e do presidente Hu Jintao ao Brasil, a impressão que se tem é que a importância que o Brasil dava à China era maior que dá hoje. O que aconteceu?

Não acho que isso corresponda à realidade. O Brasil dá uma grande importância à China. Mas há uma distância geográfica muito grande, a China tem uma prioridade para seu entorno regional e para seu relacionamento com os Estados Unidos. No ano que vem o presidente Lula vai visitar a China, haverá reunião da Cosban no Brasil e o primeiro-ministro, Wen Jiabao, deverá ir à América Latina, incluindo o Brasil. Também teremos a visita do ministro Celso Amorim à China e a do chanceler chinês ao Brasil. Mas falta um programa de médio e longo prazos e o desenvolvimento de alguns novos projetos. Biocombustíveis é uma área em que o Brasil tem liderança mundial e na qual a China tem interesse. Nós poderemos desenvolver um diálogo sobre energia, meio ambiente e biocombustíveis. O Brasil também tem uma liderança mundial em matéria agrícola e um diálogo pode ser extremamente interessante.

Dá para fazer tudo isso com uma embaixada que tem apenas o senhor e mais cinco diplomatas?

Espero que a embaixada possa paulatinamente voltar a ter sua lotação completa, que é o embaixador e mais 10 diplomatas. Isso seria mais ou menos a lotação da Embaixada da Venezuela em Pequim. Além disso, é necessário modernizar alguns setores. Há uma demanda crescente por vistos e a área consular não tem condições de atender. O prazo de concessão de vistos é de 30 dias úteis, o que é muito extenso. Com a atual lotação da embaixada, não posso acompanhar a amplitude de temas da China. Mas espero expandir um pouco, o que vai permitir à embaixada ter uma atuação maior. Há uma questão conjuntural. A nossa carreira tem esses fluxos. Muita gente foi removida daqui porque completou os três anos e teve a saída do embaixador Castro Neves, que fez um excelente trabalho aqui e dinamizou muito as relações entre Brasil e China. Agora eu estou chegando e a minha expectativa é que proximamente eu possa trazer diplomatas, funcionários e recompor a lotação. A Apex também está se estabelecendo aqui e muita coisa vai poder ser feita por eles.

O setor privado afirma que o Brasil não faz promoção comercial aqui. A frase mais ouvida é "não é o Brasil que vende para a China, é a China que compra do Brasil", porque exportamos principalmente produtos básicos que a China precisa muito, como minério de ferro, soja e petróleo. Não falta agressividade na busca de mercados para produtos brasileiros na China?

Eu acho que falta. A China é um mercado gigantesco e esse tipo de atividade demanda uma estrutura muito grande. A embaixada do Canadá tem quatro ou cinco representações comerciais em outras províncias chinesas e estão abrindo mais seis. A embaixada brasileira tem um diplomata que se ocupa da parte de promoção comercial, além de dois funcionários chineses. Fazer uma atividade de promoção comercial na China é impossível. Com a abertura do escritório da Apex essa parte vai melhorar. A outra dimensão importante é melhorar o conhecimento e a imagem do Brasil na China. A nossa imagem está muito associada a samba e futebol. Não há nenhuma imagem do Brasil como uma economia desenvolvida e com um setor industrial moderno. As pessoas desconhecem até o fato de o Brasil ser um grande produtor e exportador de aviões, embora a Embraer tenha uma joint venture aqui. Para fazer projeto de imagem em um país da dimensão da China, os recursos requeridos são enormes. O conhecimento sobre China no Brasil também é muito limitado. O desconhecimento da parte do empresariado brasileiro sobre a China e sobre como negociar com a China leva a perda de oportunidades, desentendimentos, frustrações e a conclusões como "a China é meio exótica e só importa matérias-primas". Isso é um absurdo. A China é um gigantesco importador de produtos manufaturados. Na verdade, o que a China menos importa é matéria-prima. A maior parte das importações chinesas é de bens manufaturados. Do Brasil, não, mas da Ásia, da Europa, dos Estados Unidos.

Quais são as principais pendências da relação bilateral? Como está a negociação para a abertura do mercado de carnes?

A abertura do mercado de carnes tem sido difícil para o Brasil em todo o mundo. Acho que falta aqui na China um investimento mais consistente da indústria brasileira e continuidade das iniciativas. O Brasil seguramente vai se tornar um exportador importante para a China dos três tipos de carne, de frango, bovina e suína. Mas isso implica também abrir o mercado brasileiro para os produtos chineses, respeitadas as nossas regulamentações fitossanitárias. Há pendências na área industrial, basicamente nas indústrias tradicionais nas quais os chineses são muito competitivos: calçados de baixo custo, têxteis, armações de óculos e brinquedos. Se adotarmos uma estratégia só de defesa e de criação de barreira, vai gerar irritação e não resolver o problema. Mas é necessário atender a certas dificuldades conjunturais da indústria brasileira e não acho que seja interesse dos chineses ter superávit com o Brasil. Pelo contrário. Em encontro com o ministro Celso Amorim, em Genebra, o ministro do Comércio da China declarou textualmente que não é política da China ter superávit com países em desenvolvimento porque eles já têm um superávit muito grande. Há espaço para buscar soluções de curto prazo, compatíveis com as obrigações internacionais do Brasil e de maneira que os chineses não considerem que estamos fazendo com a China o que não fazemos com outros países.

Qual saída é não-defensiva e atende a indústria brasileira ao mesmo tempo?

Acho que vamos ter que ter alguma defesa, mas criar barreiras não é a resposta. A resposta está na modernização da nossa indústria, na busca de associações com os chineses, investimentos recíprocos, desenvolvimento de novas linhas de produção, extensão de créditos à indústria brasileira para ela se modernizar. E sair também de alguns setores nos quais não temos mesmo condição de competir, nos quais a produtividade chinesa é espantosa. No caso de brinquedos, todas as grandes empresas do mundo transferiram suas linhas de produção para a China e mantiveram nos países de origem a concepção, a marca, o design e as redes de distribuição. Tem que haver um programa de médio prazo para mudar o perfil produtivo, modernizar certos segmentos e abandonar outros. Mas esses são problemas que atingem uma pequena parte do intercâmbio comercial entre o Brasil e a China, porque a maior parte não é aí. O que o Brasil importa da China hoje é componente eletrônico, bem de capital, insumos industriais, produtos cada vez mais sofisticados.

Qual o impacto da crise global na China e o efeito sobre as exportações brasileiras?

A China é um dos países que têm melhores condições de resistir à crise e manter uma alta taxa de crescimento, pois não depende de poupança externa. A poupança interna chinesa é gigantesca e a capacidade de investimento chinesa é gigantesca. A China não tem problema fiscal, acabou de aprovar um plano ferroviário de US$ 300 bilhões, para construir 20 e tantos mil quilômetros de ferrovias nos próximos anos. Mas, como as próprias autoridades chinesas vêm dizendo, a China vai ser e já vem sendo afetada pela redução das exportações. Vai haver impacto no preço das commodities e esse impacto vai se estender ao Brasil. Os preços altos que nós tivemos no período recente vão ceder um pouco. Por outro lado, a crise abre perspectivas, principalmente de investimentos. A China terá reservas de US$ 2 trilhões até o fim do ano. As oportunidades de investimentos nos países centrais vão se reduzir, enquanto na África, na América Latina e no resto da Ásia vão continuar importantes. É o momento de procurar atrair capitais chineses para o Brasil, desenvolver projetos conjuntos e ter participação chinesa na área de infra-estrutura. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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