Pércio de Souza, um dos donos da consultoria de fusões e aquisições Estáter, passou os últimos cinco anos costurando alguns dos maiores negócios do País. Ex-executivo do banco de investimentos Itaú-BBA e do Citi, Pércio negociou a compra da Ipiranga pela Petrobrás, Grupo Ultra e Braskem e a união da VCP com a Aracruz, além de ter cuidado de várias aquisições do Grupo Pão de Açúcar.

Pércio acredita que a crise vai mudar a natureza de seu trabalho. "Antes era fácil. Com o mercado subindo, dois mais dois chegava fácil a cinco. Agora, se não fizer, nada pode virar um." Pércio diz ainda que as perdas com derivativos são disseminadas pelas empresas brasileiras e que foram resultado de "cabeças brilhantes em bancos tentando maximizar resultados" com falta de regulação. Ele deu a seguinte entrevista:

Qual a situação das empresas brasileiras?

Operacionalmente as empresas estão bem. Estão investindo, estão competitivas, de um modo geral estão capitalizadas. Estão numa posição sólida para enfrentar uma reversão de mercado. É claro que sempre há exceções. Há setores que estão endividados, que estavam crescendo e investindo muito rápido e terão de se reestruturar. Com relação à parte cambial, ela é crítica, é complexa, mas eu tenho impressão de que, com a atuação do BC, ela tenderá a se normalizar nas próximas semanas.

Qual é a dimensão das perdas das empresas com derivativos? Casos como o da Votorantim, Sadia e Aracruz são isolados ou estavam disseminados pelas empresas?

Essa questão é muito mais ampla. O que está acontecendo aqui aconteceu no mundo inteiro. O mercado financeiro sempre teve cabeças brilhantes. E, numa época de bonança, é mais fácil criar distorções com as cabeças brilhantes. Elas são hábeis o suficiente para tentar maximizar ganhos. É uma coisa estranha o que aconteceu. A base de todos esses produtos derivativos são modelos estatísticos. Quando você tem bonança, os 95% de probabilidade de não haver problemas são tratados como 100%. Isso aconteceu no mundo inteiro. Por incrível que pareça, há 10 anos, aconteceu um problema semelhante: uma empresa de gênios (o fundo americano LTCM, criado por dois ganhadores do prêmio Nobel) quebrou por causa do mesmo problema. E o mercado não aprendeu. É um problema da natureza humana, de buscar o máximo de resultados e de lucros, acompanhado pela falta de regulação.

Inclusive no Brasil?

É geral. É preciso entender que capitalismo não é igual a anarquia. É economia de livre mercado, mas regulado. Não pode deixar solto. No Congresso americano há tempos que falam da regulamentação sobre os fundos de hedge e derivativos, mas nada foi feito. Do final da década de 1980 para cá, o crédito nos EUA passou de 25% para 120% do PIB. As alavancagens dos últimos cinco anos dos bancos de investimentos mais que triplicaram, basicamente, em posições de derivativos.

As pessoas ignoram o risco?

Na época de bonança todo mundo esquece dos riscos, das pontas das curvas. Você passa a assumir que não tem risco. O subprime, basicamente, começou como uma idéia inteligente - de diversificação, pulverização de risco, etc -, mas, ao longo do tempo a bonança fez com que isso fosse se desvirtuando. Você começou a aprovar risco de crédito para financiamento de casa para quem não tinha renda recorrente.

O sr. trabalhou em bancos. Como classificaria o comportamento de bancos na oferta desses produtos de derivativos de câmbio no País?

O que o banco faz é o que está na regra. De novo: quanto mais brilhantes as cabeças, maior a maximização de resultados que tentam fazer com os produtos. Eles fizeram o que estava dentro da regra. É claro que você pode ter alguns que agiram com mais responsabilidade e outros com menos. Como todo setor, há exageros. Pode ter acontecido isso. Mas a falha maior foi da falta de regulamentação, porque todo o mercado sabia disso.

Mas há muitos casos espalhados por aí?

A impressão é que está bem pulverizado. Não são casos isolados. E o câmbio reflete um pouco isso. A desvalorização chegou a quase 40% nos últimos 50 dias. Só quem chegou perto disso foram Austrália, África do Sul e Turquia, que têm déficit de conta corrente acima de 5%. Houve, portanto, uma distorção na moeda brasileira que pouco tem a ver com o fluxo cambial tradicional.

O que o BC deve fazer?

Acho que a função do BC aqui ou em qualquer lugar, é agir o mais rápido possível quando identifica um problema. É mais ou menos como uma alavanca: quanto mais longe está do ponto de apoio, menos esforço você tem de fazer para corrigir o mercado. Quanto mais perto do epicentro, mais difícil é. Mas reconheço uma coisa. Olhe o que aconteceu lá fora. Você tem o secretário do Tesouro americano que veio de um banco e está com dificuldade de estabelecer uma regra.

E o que o sr. acha da atuação dos diretores financeiros que compraram esses produtos?

É muito difícil você falar quando está de fora. E como disse, num período de bonança, o executivo tem a motivação de maximizar valor para o acionista. E aí tem uma dificuldade muito grande de identificar todos os riscos, são operações complexas, de difícil avaliação das conseqüências. E, principalmente quando você está num período longo, em que a sua curva estatística mostra que a probabilidade de problemas é baixíssima, você tende a relaxar e cometer falhas.

O pessoal ganhou dinheiro com esses produtos durante dois, três anos...

Acho que não foi um período tão longo. E acho que o principal objetivo do produto era diminuir custos das empresas.

Até pouco tempo, as empresas estavam programando grandes investimentos e aquisições. Como fica agora?

Para mim, não é clara a extensão da crise. Só é claro que existirá. A última crise de crédito ocorreu há 20 anos, em 1987, também provocada pelo setor imobiliário. Hoje, ela é mais complexa, está mais pulverizada, embora também tenha muito mais regulamentos. É como na Fórmula 1: os instrumentos de controle são muito maiores. Na década de 50, você batia um carro a 100 km/h e morria. Hoje, você bate a 200 e tem chance de sobreviver. Então, também há mecanismos que, usados de forma inteligente, conseguem minorar os efeitos.

Quais serão os efeitos?

É irreversível o efeito da crise nos próximos um, dois anos. Isso naturalmente vai afetar todos os negócios. O modelo financeiro atual não sobreviverá. Não permitirá tanta alavancagem. Portanto, vai haver queda de receita nos bancos, com ajuste de pessoas. A indústria bancária vai encolher. Além dos bancos, as empresas terão mais dificuldade para tomar dinheiro emprestado para fazer investimentos. O consumidor terá mais dificuldades de tomar dinheiro para comprar. Vem uma retração econômica mundial. A filosofia de fazer negócios, a "mergermania", mania de fusões, vai desaparecer, ou melhor , vai reduzir muito. A motivação principal era que todo mundo enxergava o mercado de capitais sólido, com possibilidade de vender ações na bolsa e valorizar o patrimônio. Você enxergava com facilidade que dois mais dois virariam cinco ou seis. Hoje em dia, não. O foco das fusões agora é outro: são setores que demandam muito investimento, e em que nem todas as empresas terão acesso a recursos. Empresas que estão muito alavancadas vão precisar se compor, serem vendidas ou se associar. E haverá consolidação de empresas menores de setores muito competitivos. A diferença agora é que vai ser muito mais difícil fazer negócio. Quando você está num movimento de subida, você consegue fazer dois mais dois virar cinco. Agora é diferente: se você pegar dois mais dois e não fizer nada, vira um. Se você fizer alguma coisa, vira um e meio. Ou três, que é um e meio para cada. E essa é uma negociação muito mais complexa de fazer.

Esse movimento já começou?

Aparentemente no setor imobiliário, que eu acompanho pouco, começou um movimento de tentar fazer essa aglutinação. Era um setor fragmentado, com muito mais empresas na bolsa brasileira do que na de Nova York. E há outros setores que estão começando a identificar situações parecidas, em que é necessário muito investimento ou existem muitas empresas endividadas.

Quando voltaremos a ver aberturas de capital (IPOs)?

Pelo menos até 2010 vai ser muito difícil. Talvez recomece em 2010, mas vem aquela dúvida: ainda não consigo ver qual tamanho terá essa crise. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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