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Amorim sugere reunião da OMC para salvar Doha

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou, em entrevista ao jornal francês Le Monde, que resta uma pequena chance de concluir com sucesso a Rodada Doha de comércio global no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas ele disse que os líderes mundiais precisam agir rapidamente e propôs um encontro em meados de setembro, em Brasília ou algum outro lugar, antes que fatores políticos já em andamento, como as eleições nos EUA e na Índia, interfiram ainda mais nas negociações que entraram em colapso em 29 de julho em Genebra.

Agência Estado |

Amorim disse que saiu muito pessimista de Genebra quando as discussões esbarraram em obstáculos políticos, mas acrescentou que nem ele nem o presidente Lula aceitam o fracasso da rodada. Ele lembrou que Lula conversou com o presidente norte-americano George Bush a respeito e, em Pequim, falou sobre as negociações com o presidente chinês Hu Jintao. "Ele (Lula) deve telefonar ao primeiro-ministro indiano e estamos em contato com os australianos e os indonésios", disse Amorim.

Manutenção dos avanços

De acordo com o ministro, se as discussões forem retomadas rapidamente, é provável que os avanços conseguidos até agora nas negociações sejam mantidos. "Mas se a retomada for feita em dois ou três anos, temo que novos cálculos e reflexos protecionistas tenham tempo de colocar em dúvida o que foi conquistado". Amorim disse, por exemplo, ter muitas dúvidas sobre o acordo da banana. No caso do etanol, houve avanços com a Europa, e menos avanços com os EUA, acrescentou.

O chanceler destacou que, embora os negociadores tenham conseguido se entender sobre temas importantes, que ele chama de "o triângulo de Pascal", numa referência ao diretor-geral da OMC, Pascal Lamy - o acesso dos produtos agrícolas ao mercado da União Européia, o acesso dos produtos industrializados aos mercados dos países em desenvolvimento e as subvenções agrícolas americanas - as discussões emperraram nos "obstáculos políticos". É curioso que a Índia tenha discutido não "para proteger uma vantagem adquirida, mas para impor um novo instrumento que não existia, estas cláusulas de salvaguardas especiais destinadas a proteger seu mercado agrícola", comentou Amorim.

Perguntado se o Grupo dos 20 (países emergentes) continua unido em torno do Brasil, o ministro afirmou que o "G20 errou ao aceitar, sem colocar em cifras, o conceito dos mecanismos especiais, tais como a cláusula de salvaguardas". Mas ele acrescentou que é preciso compreender as dificuldades de alguns, como Argentina e África do Sul, e "imaginar soluções específicas e temporárias para os mesmos".

Um dos principais motivos do fracasso das negociações em Genebra foi a falta de acordo entre a Índia e a China, duas das maiores economias emergentes do mundo, de um lado, e os EUA, de outro, sobre como as nações pobres poderiam elevar as tarifas para defender seus agricultores de aumentos repentinos nas importações. China e Índia exigiam o mecanismo de salvaguardas especiais, uma cláusula que permitiria que os dois países aplicassem tarifas especiais sobre certos produtos como açúcar, algodão e arroz em caso de um salto nas importações. Os EUA disseram que isso prejudicaria outros agricultores do mundo.

Amorim disse que a falta de um acordo dentro da Rodada Doha representará perda para todos os países, mas sobretudo para os mais pobres, "porque as subvenções e as barreiras aduaneiras se pagam em vidas humanas, em privações para as populações numerosas e em atraso no desenvolvimento de certos países". Ele admite que o Brasil perde no curto prazo, mas tem terras inexploradas, água, tecnologia e exportações agrícolas que não param de crescer. "Nós já praticamos o multilateralismo e nossas exportações estão bem repartidas: 25% para a Europa, 25% para a América Latina, 15% para os EUA e 15% para a Ásia", disse Amorim, após se declarar convencido de que o sistema multilateral, defendido na OMC, é "essencial no mundo de hoje e que os acordos bilaterais não são uma boa solução".

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