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Rio de Janeiro, 23 mar (EFE).- O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, sondou hoje no Rio o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Yukiya Amano, sobre a possibilidade de o Irã trocar minério de urânio por urânio enriquecido com alguma potência nuclear através de um terceiro país.

De acordo com Amorim, a possibilidade de que um terceiro país funcione como intermediário para a troca de urânio por combustível nuclear pode terminar com as desconfianças mútuas e dar uma saída à crise gerada pela intenção do Irã de enriquecer a 20%, suficiente para construir armas atômicas.

O ministro assegurou que a sugestão tornaria viável a proposta apresentada no ano passado pela AIEA, que prevê que o Irã entregue urânio a um país disposto a lhe devolver em troca enriquecido a 20% para um reator de pesquisas médicas.

"O Irã não tem confiança em alguns países e os outros países não têm confiança no Irã. A única forma de resolver isso é, assim como se faz em transações privadas, colocar um depositário fiel, que pode ser um terceiro país", explicou.

"O Irã poderá depositar seu urânio nesse terceiro país e, quando os elementos combustíveis correspondentes a essa quantidade estiverem prontos, fazer a mudança de forma simultânea", acrescentou.

Apesar de Amorim se abster de mencionar quantidades, versões da imprensa indicam que, em suas últimas propostas, o Irã aceitou uma troca simultânea de 1.200 quilos de urânio.

O ministro disse que esse terceiro país não necessariamente seria o Brasil, já que "há alguns mais próximos", em uma aparente alusão à Turquia.

"Se há boa vontade, eu não acho que isso seja algo impossível.

Mas se não há, se os países preferem atuar como no passado, com resultados desastrosos como no caso do Iraque, aí não haverá solução", afirmou.

Por sua vez, o diretor da AIEA lembrou que a única proposta que ainda está sobre a mesa foi a apresentada no final do ano passado pelo diretor anterior da agência, Mohamed El Baradei, que prevê a troca de urânio por combustível nuclear.

Amano comentou que pretende visitar o Irã no "momento adequado", e não só para "saudar" as autoridades. Segundo ele, no relatório que deve elaborar levará em conta as propostas tanto dos países que defendem sanções, como os Estados Unidos, assim como os outros, caso do Brasil.

De acordo com Amorin, declarações públicas recentes permitem deduzir que não há uma grande distância entre a proposta original da AIEA e o que o Irã está disposto a fazer.

"Inclusive a discussão sobre as quantidades, que foi uma das maiores diferenças, foi colocada de uma maneira satisfatória porque corresponde exatamente à quantidade que foi mencionada na proposta do ex-diretor da AIEA", acrescentou.

O Brasil, que assumiu este ano uma cadeira como membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU, defende uma solução negociada e se opõe à imposição de sanções ao Irã.

A maioria dos membros permanentes do Conselho defende as sanções perante a suspeita de que Teerã oculta, sob seu programa nuclear civil, outro de natureza militar.

"A AIEA vigiou de perto os detalhes do programa nuclear iraniano e elaborou um relatório no qual diz que não há armas nucleares", assegurou Amano.

"É preciso fazer uma referência ao Iraque para explicar a insistência do Brasil em uma solução negociada. Quando os EUA acusavam o Iraque de ter armas de destruição em massa, o Brasil dizia que isso não estava provado. Cerca de 200 mil pessoas tiveram que morrer para demonstrar que elas não existiam e que aqueles que diziam isso estavam equivocados", disse Amorim. EFE cm/pb/rr

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