As fábricas de chocolate e outros produtos alimentícios de multinacionais estão enfrentando gastos cada vez mais elevados para se obter leite, açúcar, café, trigo e cacau. Remarcando preços em todo o mundo, as maiores empresas de alimentos tentam escapar da alta nos preços das commodities e continuar lucrando.

A Nestlé, líder em alimentos do planeta, disse ontem acreditar que a alta nos preços das commodities vai continuar e, por isso, elevou o preço de 10 mil produtos. Danone e Kraft Foods também elevaram preços para fazer frente à inflação.

A Unilever, segunda maior empresa do mundo em alimentos, reconheceu há poucos dias que a alta nos preços de produtos agrícolas está afetando diretamente sua renda. A empresa elevou o preço de seus produtos, em média, em 7,4% em apenas três meses. O resultado foi uma queda no volume de vendas: de 2,9% na Europa e de 1,7% nos Estados Unidos. Parte dos consumidores saiu em busca de produtos mais baratos de marcas locais.

Na Nestlé, em seis meses, a média na alta de preços foi de 5,4%. Os executivos suíços não descartam continuar aumentando os preços e justificam que os bons resultados em 2008 nas Américas ocorreram por causa de uma elevação dos preços de seus produtos "em um momento adequado". Ontem, a empresa anunciou seus resultados do primeiro semestre. Diante da alta nas commodities, principalmente do cacau e do café, a Nestlé registrou seu pior crescimento em quatro anos.

Em um ano, o cacau subiu 41% nos mercados internacionais, ante 40% no açúcar e 33% no preço do café. Mesmo assim, os lucros da empresa são de dar inveja a qualquer país exportador de produtos agrícolas. De janeiro a junho, a Nestlé vendeu US$ 50,3 bilhões, 3,8% mais que no mesmo período de 2007. Os lucros chegaram perto de US$ 4,9 bilhões, uma alta de 6,1% e um sinal importante em meio a um mercado dominado pela incerteza e volatilidade.

Com vendas superiores a todas as exportações de produtos agrícolas do Brasil, a Nestlé sabe que seus resultados estão diretamente ligados ao que ocorre nos mercados de bens agrícolas. Para o restante do ano, a multinacional não descarta novas altas. "Não podemos dizer que elas não ocorrerão", afirmou o diretor Financeiro da Nestlé, Jim Singh. "Não há nada no cenário econômico que nos indique uma mudança positiva no cenário internacional."

A empresa gastou US$ 2 bilhões no primeiro semestre na compra de produtos de base. Em um ano, a multinacional já gastou cerca de US$ 12 bilhões na compra de leite, café, cacau, cereais e óleos. O total de compras já supera a renda de 2007.

Há uma semana, a Kraft Foods anunciou que obteve uma alta de 3,5% em suas vendas no segundo trimestre, graças a uma elevação nos preços de seus produtos.

A ONU vem alertando que cerca de 100 milhões de pessoas podem sofrer com a crise de alimentos, provocada pela alta nos preços das commodities.

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Para fazer frente aos preços das commodities, a elevação do preços de seus produtos não foi a única medida tomada pela Nestlé. A empresa diz que, dificilmente, a alta poderia ter ocorrido se novas campanhas de marketing não tivessem sido promovidas ao mesmo tempo, reforçando a marca da multinacional. "Esse foi um aspecto importante nos últimos meses", afirmou Singh.

Ele informou que os consumidores estão trocando os produtos mais caros por versões mais baratas, principalmente nos Estados Unidos onde a desaceleração da economia é mais nítida. A venda de alimentos prontos, portanto, sofreu uma queda. Singh apontou ainda para o custo de distribuição, afetado pela elevação dos preços do petróleo.

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