As grandes seguradoras e resseguradoras internacionais devem ter seus balanços de 2008 piorados pelos resultados de eventos de origem climática acontecidos durante o ano e indenizados por elas. A notícia é ruim para todos porque parte destas companhias já havia sido afetada pela crise econômica, com prejuízos de vulto comprometendo não só a saúde, mas até a sobrevivência de várias delas.

Apesar de esses riscos serem normalmente cobertos nos países europeus, nos Estados Unidos e no Japão, no Brasil, bem como em grande parte do resto do mundo, eles não são segurados, causando prejuízos imensos para sociedades inteiras, quando afetadas por eles. O curioso é que, ainda que não fazendo parte da rotina dos brasileiros, uma grande parte dos prejuízos decorrentes dos eventos de origem climática poderia ser transferida para companhias de seguros, sem maiores problemas ou dificuldades para a contratação das apólices.

As garantias fazem parte de quase todos os pacotes de seguros residencial ou empresarial e não requerem pedidos ou estudos especiais para serem comercializadas.

A começar pelos danos causados pela queda de raio no local segurado, passando por chuvas fortes, granizo e vendavais até desmoronamentos, as apólices brasileiras contemplam um bom número de sinistros potenciais, dentro de suas condições normais de cobertura, colocadas à disposição do segurado ao lado das outras garantias que ele está habituado a contratar.

Então por que ele não contrata? Antes de tudo pelo desconhecimento da existência delas e da possibilidade de contratá-las. Pesa também a mania tipicamente brasileira de achar que as coisas ruins só acontecem com os outros, ou que "como aqui nunca aconteceu isso, não será agora que acontecerá".

O drama é que acontece e aí, não tendo uma seguradora para transferir a obrigação de arcar com as perdas sofridas, sobra à vítima sacar de sua poupança para fazer frente aos prejuízos. Existem riscos, como as enchentes, que as seguradoras, dependendo do local da planta segurada, não fazem muita questão de assumir.

Mas essa mesma enchente está coberta nos seguros de automóvel, bastando o segurado escolher a modalidade do seguro compreensivo para o casco do próprio veículo.

Ou seja, cada caso é um caso, e a razão das seguradoras não oferecerem garantia de seguros para imóveis em locais de alto risco de inundação é a falta de interesse pelo seguro e da ausência de mútuo específico para fazer frente aos sinistros.

Também não há uma política oficial de incentivo à minimização de perdas e à proteção patrimonial, pensada para a sociedade brasileira como um todo. O governo, em todos os seus níveis, não desenvolve uma política sensata de ocupação e preservação do solo, não se preocupando com questões como áreas de risco, ocupação adensada, impermeabilização, falta de saneamento básico, rede de esgotos e galerias pluviais.

Sem isso, os prejuízos decorrentes de eventos como as tempestades que assolam o País, destruindo e matando nos Estados de Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e sabe Deus aonde mais até o final do verão, tornam-se onerosos demais e impossíveis de serem transferidos para as seguradoras, em função do alto preço de cada apólice.

Seguro é estatística, prevenção e gerenciamento de risco e capilaridade da massa segurada. Quanto mais pessoas fizerem seguro, mais barato as apólices custam, por conta da dispersão dentro de um universo maior de segurados. Se o Governo Federal incluísse no Bolsa Família uma verba para custear um seguro para proteger os imóveis ocupados pelos beneficiários do programa contra incêndio e praticamente todos os riscos de origem climática, ele não gastaria mais do que R$ 50 por ano com cada imóvel segurado e garantiria aos seus moradores, sem outras despesas para o Poder Público, a sua recuperação em caso de sinistro. Será que a implantação imediata de uma medida dessas não vale a pena?

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