A manutenção do atual nível de câmbio levará a uma nova onda de calotes no agronegócio brasileiro, alertou hoje Cesário Ramalho da Silva, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB). Segundo ele, o produtor de soja, principal produto da pauta de exportação do País, deve fechar a safra 2009/10 no prejuízo.

"Vamos mais uma vez falar em endividamento e renegociação de dívidas no ano que vem. O produtor não vai conseguir pagar seus fornecedores e seus financiamentos", previu.

A SRB convocou a imprensa hoje para apresentar dados sobre o impacto da valorização cambial sobre a cadeia do agronegócio. Na prática, o estudo limitou-se a demonstrar o efeito de duas taxas de câmbio diferentes sobre o preço da soja em real, com base na cotação média de US$ 20,60 por saca, apurada em setembro passado na Bolsa de Chicago (CBOT). Levando-se em conta a taxa de câmbio média de dezembro de 2008, de R$ 2,40, o produtor receberia o equivalente a R$ 49,44 por saca. Com o câmbio médio de R$ 1,82, apurado em setembro passado, esse valor cai para R$ 37,47 - um recuo de 24,2%.

No entanto, a SRB não apresentou os cálculos relativos à safra que está sendo plantada agora e será comercializada ao longo de 2010. "Mas podemos afirmar que o agricultor está no prejuízo", afirmou Silva. Segundo ele, essa é razão pela qual os produtores só negociaram 20% da nova safra. Já devíamos estar com 40%". Ele alertou que o problema deve se agravar nos próximos meses, caso Brasil e Argentina, a exemplo dos Estados Unidos, também colham safras recordes. "Vamos ter um excedente de 10% na produção mundial de soja em 2009/10. Quando o mercado perceber isso, os preços em dólar também vão cair em Chicago", previu.

O presidente da SRB disse, ainda, que a valorização do real ante o dólar está transferindo renda do setor rural para o setor urbano e que o governo, mais cedo ou mais tarde, "vai ter de mexer na política cambial". A entidade não tem proposta sobre o tema, mas ele sugeriu que o Brasil estude o modelo adotado por outros países. "Como a China e a Argentina administram seu câmbio?", indagou. Segundo ele, a questão tem de ser discutida no Congresso, "que atualmente só debate o meio ambiente".

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.