No começo da manhã de ontem, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) suspendeu mais uma vez as negociações dos papéis da Agrenco. A instituição quer mais esclarecimentos sobre o fato relevante divulgado pela companhia na quarta-feira, feriado em São Paulo.

O documento informa ao mercado que o grupo Noble, de Hong Kong, fez uma oferta pela Agrenco - já recusada - e que a Louis Dreyfus Commodities (LDC), com quem a Agrenco assinara um acordo de compra no dia 24 de junho, se comprometia a confirmar a transação em dois dias úteis. Ou seja: hoje.

Até aqui, esse episódio trouxe mais dúvidas do que respostas. Nem as duas partes envolvidas se entendem. A LDC informou ontem que está fazendo todos os esforços, mas não pode precisar se vai conseguir terminar a due diligence (análise detalhada dos números da empresa) antes do prazo previsto no memorando de entendimento. O grupo francês não quis divulgar o prazo, se é de dois dias, como diz a Agrenco, ou não.

Mesmo tendo captado R$ 666 milhões na Bolsa em outubro do ano passado, a Agrenco procurava um sócio para injetar pelo menos US$ 100 milhões para capital de giro. Sua dívida já ultrapassa R$ 1 bilhão, e o crédito para empresas do setor está sendo cortado pelos bancos. Com a prisão de três dos principais acionistas e executivos pela Polícia Federal em junho, a situação ficou mais dramática. A Agrenco é uma das maiores exportadoras de soja do País.

Não é só a Bovespa que achou a comunicação insuficiente. Os acionistas também estão se sentindo no escuro. Animados com o comunicado de quarta, que sinalizava uma solução rápida para a Agrenco, investidores quiseram comprar ações. Antes da abertura do pregão, havia reserva para compra de ações por R$ 1,80, valor 28,5% maior do que o registrado no encerramento da terça-feira.

Ninguém conseguiu entender os termos do acordo entre a LDC e a Agrenco. "A única coisa que está clara é o aumento de capital (de US$ 33,5 milhões)", diz o executivo de um banco. "Eles disseram que colocaram dinheiro na Agrenco Holding e que ela vai subscrever ações da Agrenco Limited (empresa de origem estrangeira que negocia papéis na Bovespa e é controlada pela Holding). Mas não se sabe como ela chegou ao valor proposto e nem qual foi o negócio entre a Holding."Outro problema, segundo ele, é que a LDC condicionou a proposta à não existência de uma oferta pública. "E como ficam os minoritários nessa história?", diz o executivo.

Conselheiros

Desde a prisão, a reportagem procura insistentemente a companhia para responder a essas questões. Nenhum de seus executivos e conselheiros quis dar entrevista até o momento.

O mais novo integrante desse time é o executivo Cassio Casseb, que foi convidado para o conselho no começo do ano. Com grande experiência no mercado financeiro, teria se juntado à Agrenco para negociar empréstimos. Ele é apontado como o responsável pelo acordo com a LDC, dada a sua estreita ligação com o grupo - Casseb era presidente até 2006, antes de assumir o comando do Pão de Açúcar. A indicação de Casseb só foi informada ao mercado nesta semana. "A relação deste conselheiro com a Dreyfus pode ser um conflito à primeira vista, mas também pode salvar a companhia", afirma João Juenemann, conselheiro do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). "Aparentemente, não é um problema não avisar o mercado. Não sei dizer o motivo do atraso. Pode ter sido estratégico."

Certo ou não, o fato é que os acionistas não estão satisfeitos com a postura que a Agrenco vem tomando, mesmo antes da prisão dos executivos. Para eles, falta transparência na comunicação. O comportamento causa ainda mais espanto porque a empresa tem no seu time de conselheiros um profissional tido como um bastião da transparência, o economista José Guimarães Monforte, ex-presidente do IBGC. "Ainda é cedo para julgar o comportamento, porque temos poucos elementos para avaliar. O que se tem até agora é um emaranhado de informações não conclusivas, com hiato e que se chocam", diz Juenemann. "A postura da Agrenco é atípica. Tenho certeza absoluta que será um caso de referência. Só não dá para dizer ainda se bom ou ruim."

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