A chama inflacionária do início do ano se acalmou, sob o efeito do desaquecimento econômico mundial e da queda do preço das matérias-primas, a ponto de outro problema preocupar os economistas - a deflação.

"É claro que a ameaça inflacionária de há um ano desapareceu. É muito cedo para dizer que passamos para uma situação de deflação, mas pode acontecer", destacou o professor de Economia na Universidade de Columbia e Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, entrevistado pela AFP.

A espetacular alta dos preços do petróleo e das matérias-primas entre o final de 2007 e meados de 2008 fez os índices mundiais de inflação darem um salto a níveis que não eram vistos em anos, talvez em décadas: 5,4%, nos Estados Unidos; 4%, na Zona do Euro; e 8,7%, na China.

Esse fenômeno acelerou o declínio da atividade econômica no mundo todo, reduzindo o poder de compra dos consumidores. A espiral inflacionária se inverteu, porém, durante o verão (hemisfério norte), cedendo lugar a uma "desinflação", uma desaceleração do ritmo de crescimento dos preços.

Afetados pelas perspectivas de recessão nos países ricos e na demanda mundial, os preços das matérias-primas registraram acentuada queda, com o valor do petróleo caindo 60% desde metade de julho.

Se a inflação for superior ao nível esperado pelos bancos centrais (4,9%, nos EUA; 3,2%, na Zona Euro; 4,6%, na China; 13%, na África do Sul etc.), deverá continuar seu refluxo, podendo se transformar em deflação, ou seja, um longo período de preços em queda.

Na Zona Euro, "a inflação deve cair violentamente de 4% a 2% e abaixo de 2%, em 2009", prevê o professor da Economia no Instituto de Altos Estudos Internacionais de Genebra Charles Wyplosz.

A Comissão Européia prevê 2,2% para o próximo ano.

Ainda que uma queda dos preços pareça, a priori, favorecer os consumidores, a deflação, conseqüência do marasmo econômico, é acompanhada de uma alta do desemprego e de uma redução dos salários, que leva a um menor poder de compra.

Ela acontece, sobretudo, após a explosão de bolhas especulativas, como a que atingiu o Japão, a partir de 1992, e da qual até hoje esse país asiático realmente ainda não saiu.

Para o economista da Natixis Evariste Lefeuvre, a evolução dos preços se tornará negativa, se as cotações do petróleo continuarem a cair até 35-40 dólares, mas uma situação de deflação aparecerá apenas se "os preços caírem, de forma prolongada, além das matérias-primas".

Fator de risco: um excesso de oferta em relação à demanda.

Lefeuvre lembra que a taxa de investimento no mundo subiu de 23%, no início de 2000, para 27%, entre 2004 e 2008.

Para Joseph Stiglitz, o risco está localizado, principalmente, do lado da China, motor do crescimento mundial nos últimos anos, onde as capacidades de produção são imensas.

"O endividamento extremamente elevado dos agentes econômicos constitui hoje um outro fator de risco", completa Evariste Lefeuvre.

Ainda que ele considere que as empresas estão "em uma situação bem melhor do que os grupos japoneses em 1992", espera que "os bancos centrais entrem em uma corrida contra o relógio para reduzir suas taxas de juros mais rápido do que a desinflação".

O Banco Central Europeu (BCE) deve reduzir, claramente, sua principal taxa de juros na quinta-feira. Os economistas antecipam um corte de meio ponto percentual, a 3,25%.

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