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Depois de adiadas até quarta-feira, dia 30, numa tentativa de evitar um fracasso, as negociações multilaterais de comércio em Genebra continuavam, neste sábado, enfrentando obstáculos para encontrar uma fórmula que satisfaça os países mais reticentes, principalmente a Índia, a Argentina e a África do Sul.

Na véspera, as principais potências comerciais que negociam na Organização Mundial de Comércio (OMC) chegaram a um consenso sobre um esboço do acordo, dando novas esperanças a uma conclusão para a Rodada Doha de liberalização mundial do comércio, iniciada há sete anos.

O Brasil, um dos principais países do bloco dos emergentes, indicou que está pronto a aceitar o acordo, mas a Argentina, por sua vez, não se mostrou tão satisfeita.

O comissário do Comércio da União Européia (UE), Peter Mandelson, tentou acalmar as reclamações da Argentina, dizendo que o país tem muito a ganhar em suas exportações para a Europa e "nada a temer quanto ao acesso a seus mercados industriais".

Outros negociadores apostavam na possibilidade de os Estados Unidos oferecerem facilitar o acesso de engenheiros informáticos indianos em seu território para que Nova Délhi flexibilize sua posição.

Um acordo na OMC requer a aprovação de seus 153 Estados membros.

A Rodada Doha tomou um novo impulso na sexta-feira, com as propostas de seu diretor, Pascal Lamy, para conciliar os intereses dos exportadores agrícolas do Sul e dos exportadores industriais do Norte.

Estados Unidos, UE, Brasil, Austrália e Japão - cinco das sete maiores potências comerciais (junto com a Índia e a China) - expressaram seu apoio a esse documento, com diferentes matizes.

No entanto, os países da UE pediram neste sábado a Mandelson que busque melhorar o capítulo agrícola, uma vez que existem divergências entre os 27 membros neste ponto. França, Hungria, Lituânia, Itália e Irlanda se mostraram particularmente hostis à proposta, que teve o apoio da Grã-Bretanha, Suécia, Holanda, Alemanha e Áustria.

Do lado dos emergentes, o Brasil deu apoio total às propostas de Lamy. "Acho que demos um grande passo", celebrou o ministro Celso Amorim.

O entusiasmo do Brasil contrastou com a recusa da Argentina, seu sócio no Mercosul.

"Para nós, esse papel (de Lamy), como está, não é aceitável", afirmou o chanceler argentino, Jorge Taiana.

"A posição brasileira criou uma tensão, mas não por nossa causa", indicou o chefe dos negociadores argentinos na OMC, Alfredo Chiaradia.

A Argentina questiona o capítulo agrícola da proposta (redução de subsídios internos e de tarifas) e industrial (tarifas), assim como o equilíbrio que resulta de ambos. "Na agricultura (as propostas) são insuficientes e nos produtos industriais muito elevadas", resumiu Chiaradia.

Também Índia e a África do Sul resistem à abertura de seus mercados industriais no formato proposto por Lamy.

O embaixador da Índia ante a OMC, Ujal Singh Bhatia, evocou neste sábado a possibilidade de deixar todo mundo plantado.

"Viemos com um monte de presentes e queremos que nos dêem, em troca, um monte de presentes. De outro modo, vamos embora com os presentes que trouxemos", ameaçou.

O vice-ministro sul-africano do Comércio, Rob Davies, também disse que não pode aceitar o pacto de Lamy.

A secretária americana do Comércio, Susan Schwab, denunciou na véspera "um punhado de grandes mercados emergentes que ameaçam desintegrar o pacote em sua totalidade".

Também há fortes questionamentos por parte do Paraguai e Uruguai - exportadores agrícolas - quanto a um Mecanismo de Salvaguardas (SSM) que permitirá a um país aumentar as tarifas para se proteger de uma chuva de importações ou de uma queda brusca dos preços de um determinado produto.

Os países em desenvolvimento defendem o SSM, principalmente a Índia, muito protecionista na área agrícola.

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