SÃO PAULO - A ação global coordenada começa a reverter a onda de crise financeira, mas os governos também precisam empregar todos os instrumentos para limitar os danos à economia real, afirmou hoje o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. Até este fim de semana, o colapso na confiança nos mercados quase combinou com um colapso na confiança entre países. Vimos uma tendência ruim de medidas unilaterais tomadas com interesses nacionais em mente.

Agora, as coisas começam a mudar. Com o que observamos nesta manhã, os resultados nos mercados europeus e asiáticos foram bons", sustentou Strauss-Kahn no fim do encontro anual do Fundo e Banco Mundial.

Ele avaliou, contudo, que existe um longo caminho para estabilizar os mercados financeiros e reviver a economia mundial. "A ação nos mercados financeiros é essencial, mas não é suficiente. Também precisamos empregar todos os instrumentos de política macroeconômica moderna para limitar o estrago na economia real", destacou.

Strauss-Kahn considerou que o mundo passa pela crise financeira mais perigosa desde a Grande Depressão dos anos de 1930, mas, devido às lições aprendidas, o mundo agora "tem as ferramentas econômicas para sair dessa crise com economias e sociedades intactas".

Durante o fim de semana, líderes políticos e representantes do setor financeiro mundial estiveram reunidos em Washington e Paris e juntaram uma série de planos para combater a crise financeira e restabelecer a confiança no sistema financeiro global.

"Essas abordagens são amplas, atacando todos os aspectos dos problemas do mercado financeiro: liquidez, ativos podres, falta de capital e especialmente confiança", avaliou.

O dirigente do FMI notou que a reação mundial não tinha de ser uniforme, mas deveria ser coordenada. "Ainda temos um longo caminho pela frente. Não precisamos ter todos as mesmas políticas, mas devemos falar uns com os outros sobre nossas políticas e considerar os efeitos de nossas ações sobre nossos parceiros. O fim de semana foi justamente o início de um longo esforço", sustentou.

Strauss-Kahn recomendou que as economias avançadas devem se valer da política fiscal "quando puderem". As economias emergentes possuem graus diferenciados de liberdade de ação: algumas podem sacar reservas para financiar temporariamente uma queda repentina no fluxo de capital; outras necessitarão ampliar a política de taxa de juro em linha com a alta dos prêmios de risco e ampliar a confiança em suas moedas. Existirão ainda, segundo o FMI, países que precisarão de ajuda substancial, incluindo do Fundo. "Temos uma abundância de liquidez", declarou o titular do organismo.

Ele recordou ainda que países em desenvolvimento enfrentam uma redução na demanda de bens exportados e acesso menor ao crédito comercial. O Fundo, observou, está comprometido a ajudar as nações em dificuldade e disse que o órgão multilateral está pronto a emprestar recursos rapidamente.

Segundo Strauss-Kahn, a crise no setor financeiro foi conseqüência de falha regulatória e de supervisão nas economias avançadas, falha na administração de risco em instituições financeiras privadas e fracasso nos mecanismos de disciplina do mercado.

"Evitar a recorrência desses fracassos irá requerer esforço internacional, porque as fronteiras não confinam instituições financeiras ou mantêm de fora a turbulência financeira", afirmou.

(Juliana Cardoso | Valor Online)

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