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A pacificação do Banco Central segundo Meirelles

A alma política do BC só foi inaugurada quando Henrique Meirelles, um deputado eleito pelo PSDB, adentrou as portas do banco

Gustavo Gantois, iG Brasília |

Em seus 45 de existência, o Banco Central nunca dividiu tanto os holofotes da política quanto no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. É claro que houve tempos em que os rumos da vida de cada brasileiro dependiam das ações da equipe que despacha dentro do monólito negro de concreto e vidro, mas a alma política do BC só foi inaugurada quando Henrique Meirelles, um deputado eleito pelo PSDB, adentrou as portas do banco em 2003.

Esse mesmo perfil político, que colocou o mercado financeiro em estado de alerta nos últimos três meses, à espera de uma definição sobre seu rumo, fez com que Meirelles imprimisse uma gestão que nenhum outro comandante do Banco Central conseguiu. Pode-se dizer, sem exageros, que se Fernando Henrique Cardoso pacificou o ministério da Fazenda com o plano Real, Meirelles e Lula pacificaram a autoridade monetária guardada no monólito.

“Lula aprendeu que, em economia, a continuidade é uma virtude”, afirma Jason Vieira, economista-chefe da consultoria UpTrend. “Foi com esse discurso que ele ganhou a população e o mercado. E com a prática desse discurso ele comprou a permanência de Meirelles”.

Foi para garantir essa continuidade que Lula bancou Meirelles durante toda a sua gestão. Até mesmo mais que qualquer outro colaborador histórico do presidente, como nos casos de Antonio Palocci, José Dirceu e Luiz Gushiken. Por Meirelles, que em 2005 enfrentou um bombardeio de denúncias de crimes contra a ordem tributária, Lula fez o que nenhum outro presidente ousou fazer: concedeu o status de ministro ao presidente do BC, envolvendo no manto da proteção jurídica a figura que angariou o apoio político internacional ao seu governo pelas acertadas ações na economia.

Legado garantido

Meirelles também será lembrado pelo mercado por outros méritos. Coube praticamente a ele a tarefa de consolidar o sistema de metas de inflação. Implantado em 1999, o governo de Fernando Henrique Cardoso conviveu apenas quatro anos com elas. E em dois deles, a inflação estourou a meta. Desde 2003, a responsabilidade passou para Meirelles e a inflação permaneceu dentro dos limites de tolerância desde então.

Sob sua batuta, o BC também aprimorou os mecanismos de fiscalização do sistema financeiro, algo que contribuiu para que não assistíssemos, por aqui, uma sucessão de quebras de bancos durante a crise mundial. Além de adotar alguns critérios mais rígidos do que os do Acordo de Basiléia, o Banco Central também procurou aumentar a confiança no sistema com a revitalização de mecanismos como o Fundo Garantidor de Crédito.

“Meirelles se preocupou muito com os riscos sistêmicos, algo que só agora os outros bancos centrais estão mirando”, afirma Celso Grisi, presidente da consultoria Fractal e professor da Fundação Instituto de Administração.

A atuação durante a crise também é elogiada por muitos. A redução do depósito compulsório, por exemplo, garantiu liquidez ao sistema em um momento de sumiço do crédito mundial. Além disso, o BC de Meirelles conseguiu acumular um belo colchão de dólares nas reservas internacionais. Foi com a venda de parte dela que ele também evitou uma disparada do câmbio no pior momento da crise.

Os números estão ao seu favor. Quando Meirelles assumiu o BC, a taxa básica de juros da economia estava em 25%, a inflação fechava o ano anterior em 12,53% e as reservas internacionais estavam diminuídas a pouco mais de US$ 37 bilhões. Hoje, o quadro é completamente oposto. A Selic está em 8,75%, o mais baixo patamar histórico. A inflação, ainda que o próprio BC projete chegar a 5% este ano, fechou em 4,31% em 2009. As reservas, por sua vez, ultrapassam os US$ 243 bilhões.

Herança nada maldita

Para chegar ao ponto que chegou, Meirelles teve a ajuda de seus antecessores. Antes dele, Armínio Fraga, Gustavo Franco, Gustavo Loyola, Persio Arida e Pedro Malan testaram várias fórmulas para que a economia se ajustasse ao que havia sido idealizado na criação do Real. Durante esse período, tivemos a paridade cambial, a maxidesvalorização, o socorro aos bancos pelo Proer.

“Foram atitudes que consagraram um modelo econômico que não encontrava brecha em todos os 45 anos de Banco Central”, analisa Ricardo Brito, professor do Insper. “Meirelles conseguiu amarrar a política monetária atual porque teve as bases sólidas de testes e acertos deixados pelos presidentes anteriores”.

Essa dedicação aos fundamentos colocou o Brasil nos principais fóruns mundiais sobre decisões econômicas. Meirelles é, inclusive, o primeiro brasileiro a integrar o conselho diretor do Banco de Compensações Internacionais (BIS), formado pelos bancos centrais de 56 países. Essa posição consolidou sua longevidade no comando do BC. São 2.647 dias, quase um ano a mais que o segundo presidente mais longevo, Ernane Galvêas, que presidiu a instituição nos governos militares de Costa e Silva, Médici e Figueiredo. É um recorde que, espera-se, seja igualado pelos próximos.

 

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