Sem melhora política e com fraco ajuste fiscal, Brasil pode sofrer novos cortes

Por Agência Estado |

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Moody's surpreendeu pela "agressividade" no rebaixamento, em dois níveis, colocando o País no grau especulativo

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Apesar de esperado pelo mercado, o rebaixamento do rating do Brasil em dois níveis pela agência de classificação de risco Moody's na manhã desta quarta-feira, 24, surpreendeu pela "agressividade", justificada pela defasagem em relação às outras agências de rating. A Moody's era a única das três principais a manter o Brasil no grau de investimento e, por isso, a avaliação de economistas ouvidos pelo Broadcast (serviço de notícias em tempo real da Agência Estado) é que este downgrade tem efeito mais limitado nos mercados domésticos, mas deve afastar ainda mais investidores do País.

Clima de instabilidade política, com dificuldade para o andamento de ajustes, deve levar a cortes
Reprodução
Clima de instabilidade política, com dificuldade para o andamento de ajustes, deve levar a cortes

Para os especialistas, a instabilidade política e a falta de uma solução para o desequilíbrio fiscal no curto prazo podem levar a novas rodadas de rebaixamento ainda em 2016 e pressionar o Congresso em relação a reformas consideradas essenciais para a economia.

O corte na nota de crédito do País em dois níveis, de Baa3 para Ba2, com perspectiva negativa, é um sinal de que a Moody's "optou não ficar atrasada novamente", na avaliação do economista da Tendências Consultoria Integrada Sílvio Campos Neto. Na semana passada, a Standard & Poor's (S&P), que já havia colocado o Brasil no grau especulativo em setembro de 2015, voltou a rebaixar a nota de crédito. Para Bernard Gonin, da Rio Gestão, o downgrade já estava incorporado aos preços dos ativos, mas a redução em dois níveis é uma surpresa.

Economistas apontam ainda a relação direta entre as decisões das agências de classificação de risco a anúncios da política econômica. O ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC) Alexandre Schwartsman destacou, assim como o jornal "O Estado de S. Paulo" havia apontado em editorial, que os últimos rebaixamentos da nota do Brasil ocorreram após medidas pouco ortodoxas adotadas pelo Ministério da Fazenda.

O downgrade pela S&P veio depois de o governo enviar ao Congresso peça orçamentária deficitária. O segundo, pela Fitch, foi após a Fazenda sugerir redução da meta de superávit primário. Agora, a Moody's corta a nota do País dias após o anúncio de uma banda fiscal.

Sem uma melhora do ambiente econômico e político que levem a um ajuste fiscal convincente, novos rebaixamentos do rating soberano brasileiro devem ocorrer nos próximos meses, avalia o economista para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos. Uma estabilização dos ratings e, eventualmente, a volta para o grau de investimento demandarão do governo federal uma combinação de um ajuste fiscal convincente e reformas estruturais para aumentar o crescimento potencial do País, avalia Ramos. "Infelizmente, o cenário de curto prazo não é muito promissor."

O lado menos ruim do fato é que o corte da nota pode funcionar como um catalisador para a classe política brasileira fazer andar a agenda econômica. Na avaliação do diretor de pesquisa econômica da GO Associados, Fabio Silveira, este seria o estímulo que faltava ao Congresso Nacional e ao governo para um pacto político em torno do reequilíbrio fiscal do País. Campos Neto concorda que enquanto o impasse político não for resolvido as questões econômicas e fiscais também não avançarão. "Como o cenário político está muito indefinido e pode se arrastar até 2018 não dá pra enxergar uma luz no fim do túnel", afirmou.

A Moody's afirmou que a adoção de uma meta flexível para o superávit primário não foi determinante para a decisão, mas destacou dificuldades do Congresso em aprovar reformas e atribuiu a perspectiva negativa às incertezas políticas e econômicas.

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