Abalada com crise no governo, CUT troca shows por debate com movimentos sociais

Por Maíra Teixeira - iG São Paulo |

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Em vez do clima festivo, Central Única dos Trabalhadores fará evento para reforçar direitos no Dia do Trabalho; grupo fará nesta terça-feira ato em parceria com grupos como MST e UNE

CUT fez manifestação contra ajuste fiscal e medidas que retiram direitos dos trabalhadores em março; hoje central se une a movimentos populares contra Projeto de Lei 4330, que será votado na Câmara
Robson Fernandjes/Fotos Públicas
CUT fez manifestação contra ajuste fiscal e medidas que retiram direitos dos trabalhadores em março; hoje central se une a movimentos populares contra Projeto de Lei 4330, que será votado na Câmara

Exposta ao momento crítico enfrentado pelo governo federal, a Central Única do Trabalhador (CUT) decidiu neste ano abandonar o clima de festa na celebração do 1º de maio, que tradicionalmente conta com shows e clima de festa. Neste ano, o Dia do Trabalho será uma data para discussões de temas como emprego, educação e habitação. O 1º de maio contará com a participação de movimentos sociais, como Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), União Nacional dos Estudantes (UNE) e Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Não será o primeiro ato encabeçado pela CUT que terá a participação de outros movimentos sociais. No mês passado, no dia 13, os mesmos grupos fizeram uma mobilização nacional. Nesta terça-feira (7), a CUT se alia à Central dos Trabalhadores Brasileiros (CTB), ao MST, à UNE e dezenas de movimentos populares do campo e da cidade realizam manifestações em todo o Brasil para impedir que o Congresso Nacional aprove o Projeto de Lei 4330/04, que libera a terceirização para todas as atividades das empresas. Na prática o projeto propõe a generalização da terceirização, o que precariza a vida do trabalhador, aumenta a informalidade disfarçada pela "pejotização", cria contratos temporários, exclui direitos.

Os principais atos estão programados para serem realizados em Brasília, no Congresso Nacional, e em São Paulo, na Praça da República. O movimento também terá como bandeira a defesa da saúde pública, da democracia, dos direitos dos trabalhadores, da Petrobrás e das reforma política, agrária e da comunicação e combate à corrupção.

Adi dos Santos Lima, presidente da CUT-São Paulo, um dos organizadores da festa de 1º de Maio da CUT, afirma que a central vive um momento importante, de forte mobilização e que é preciso mudar a forma de atuar. Por esse motivo, a festa também não contará com sorteios. A festa da Força Sindical, outra comemoração tradicional em 1º de maio, terá 11 atrações musicais e 19 sorteios de veículos. 

Carla Diéguez, socióloga e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)
Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo/Divulgação
Carla Diéguez, socióloga e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

"A conjuntura exige de nós maior unidade. O papel dos movimentos sociais e sindicatos hoje é diferente da década de 1970, por isso essa união é fundamental para a luta avançar como sociedade e, principalmente, a classe trabalhadora. Hoje temos de fazer a luta pela democracia, temos de defender o que conquistamos nos últimos anos, pelos direitos dos trabalhadores", afirma Lima.

De 2004 até 2009, as festas da CUT tiveram como chamariz shows de cantores populares. A partir de 2010, a central começou um movimento de utilizar bandeiras temáticas para a festa, como povos latino-americanos, Brasil e África e sustentabilidade. "Neste ano, a conjuntura nos remete a outro tema: Pela Democracia, Pelos Direitos dos Trabalhadores, em Defesa da Petrobras e Contra a Corrupção", explica Lima.

"Para quem já viveu sem liberdade de ir e vir, sem liberdade de expressão, sem poder se organizar, sabe que tem de valorizar muito o que vivemos hoje. Infelizmente, tem gente indo às ruas pedir o retrocesso e até um intervenção militar. A classe trabalhadora precisa se organizar", diz o sindicalista da CUT que fará reunião na quinta-feira (9) com os movimentos socias, para definir como será a programação.

Para Lima, a diferença de 2004 para hoje é a conjuntura. "Em 2004 não tinha crise mundial, estávamos no segundo ano do governo Lula, as coisas já começavam a melhorar no emprego e tínhamos o que comemorar na geração de vagas. Hoje temos outro cenário que não requer ênfase maior nos shows. Por isso não será o enfoque principal, nem temos essa programação ainda", explica Lima.

Questionado sobre a mistura do movimento sindical com a política, o sindicalista explica. "A CUT nasceu da origem de sete partidos políticos (entre eles o PTB, PMDB, PT, PC do B). Não entendo a razão de não falarem da Fiesp como um braço do PMDB, do DEM, mas falam de nós como braço do PT. Nós nunca misturamos as coisas, temos muitas diferenças com o PT e temos procurado ver aquilo que nos unifica, mas lutamos contra o ajuste fiscal e medidas do governo da presidente Dilma Rousseff."

Para Carla Diéguez, socióloga e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), é preciso entender que existem diferenças entre as centrais sindicais e as bandeiras que encapam. "É preciso conhecer a corrente ideológica das centrais, quais são os interesses que defendem. No dia 13 de março, o ato proposto pela CUT tinha pauta concisa, a favor da Petrobras, contra a corrupção e contra o ajuste fiscal do governo. Era uma manifestação pelo emprego e pelos direitos trabalhistas", ressalta a socióloga.

Arnaldo Mazzei Nogueira, pesquisador das relações de trabalho e professor titular da PUC-SP e da Faculdade de Economia e Administração e Ciências Contábeis da USP, concorda com a socióloga da FESPSP. "Um dos principais líderes da Força é o Paulinho, que fundou o partido Solidariedade, é deputado federal, mas não vemos ele na luta solidária, como diz o nome do partido, pelo trabalhador. Ele é um dos que defendem a aprovação do projeto de Lei 4330 ao lado de Paulo Skaf [presidente da Fiesp]– que será votado nesta terça-feira pela Câmara."

Para Nogueira, a CUT, ao ressuscitar bandeiras históricas do trabalhador, começa a corrigir a rota, enquanto "a Força vai chamar os cantores sertanejos para atrair a massa, mas não tem entrado na briga". "A CUT deve atrair menos público, mas  pode tentar colocar no contexto um projeto para o trabalhador. Tenta avançar."

Na avaliação da socióloga da FESPSP, a crise de representatividade dos partidos, do Executivo, do Legislativo, se espelha no movimento sindical. "Percebemos que tem um movimento ganhando força. Eu penso: como canalizar vontades e desejos, sem ter uma interlocução? O novo ainda não surgiu. Se não percebermos isso, vamos continuar desconectados dos anseios do povo e da classe trabalhadora."

A bancada dos trabalhadores, lembra a socióloga, tem diminuido. "Candidatos dos trabalhadores não estão ganhando cargos, pois perdem espaço para bancadas conservadoras, como a da bala, evangélica, os Bolsonaros (Jair Bolsonaro). Vemos a presença forte de candidatos sindicalistas, mas eles não ganham mais como antes. Há descrença em movimentos sindicais e nos líderes desses movimentos que estão no poder", avalia a socióloga.

O especialista em relações de trabalho afirma que há um heterogeneidade nociva no cenário atual. "São velhas pautas, sindicatos de fachada, é preciso buscar uma nova representatividade". A socióloga afirma que é preciso ficar mais perto das pautas do mundo do trabalho, "assumir as bandeiras que de fato interessam aos trabalhadores como faz a Conlutas, por exemplo", diz Carla Diéguez.

Crise de identificação gera recuo no número dos sindicalizados

Carla afirma que a crise sindical de hoje ocorre porque as bandeiras não representam os anseios do trabalhador. "Isso faz com que as pessoas não se sindicalizem, não se reconheçam como classe."

Segundo dados do Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD 2013) no ano 2000, 18,9% da população ocupada era sindicalizada, enquanto em 2013, o número caiu para 14,8%. "A relação caiu de um quinto para um décimo neste período", avalia a socióloga.

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