Telexfree: líderes agora promovem de palmito a colchão

Por Vitor Sorano - iG São Paulo | - Atualizada às

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Depois de bloqueio da empresa, grandes divulgadores partem para outros negócios que prometem até jatinho como prêmio

Reprodução
Inocencio Reis, o Pelé Reis ao adquirir sua Ferrari, um ano após entrar para a Telexfree

Conhecido como o vendedor de espetinhos que, em um ano, foi transformado pela Telexfree no proprietário de uma Ferrari 360 Spider, Pelé Reis se despede.

“Agradeço a todos que me acompanharam no projeto Telexfree”, diz em texto publicado em uma rede social. “Pelé Reis, a partir de hoje [23 de abril], estará iniciando um novo projeto na BBom."

A Telexfree teve as contas congeladas pelas Justiça do Brasil, em 2013, e dos Estados Unidos, no último dia 15, por acusação de que o negócio é uma gigantesca pirâmide financeira disfarçada de marketing multinível.

Antes de os bloqueios ocorrerem, Pelé e outros líderes – como são chamados os grandes divulgadores do negócio – fizeram fortuna na empresa. Em dezembro de 2012, durante um evento, ele recebeu um cheque simbólico R$ 3,1 milhões.

Com a Telexfree bloqueada, esses líderes passaram a promover outros negócios que, da mesma forma, apresentam-se como oportunidades de se ganhar milhares ou milhões de reais, além de carros de luxo com o que é apresentado como marketing multinível.

Pelé Reis recebe cheque simbólico de R$ 3 milhões da Telexfree em 2012. Foto: ReproduçãoEm abril de 2014, com as contas da Telexfree bloqueadas no Brasil e nos EUA, Pelé anuncia apoio à BBom. Foto: ReproduçãoFerrari com a placa da BBom: após liberação parcial pela Justiça, dono promete retornos ainda maiores para participantes. Foto: DivulgaçãoMarcus França recebe cheque simbólico de R$ 3 milhões da Telexfree em 2012. Foto: ReproduçãoApós bloqueio da Telexfree, Marcus França anuncia apoio à Paymony, de mineração de moedas virtuais. Foto: ReproduçãoPaymony: empresa informa que participante pode ganhar até US$ 25 mil por dia apenas em bônus. Foto: ReproduçãoMisael Martins recebe cheque simbólico de R$ 3 milhões da Telexfree em 2012. Foto: ReproduçãoApós bloqueio da Telexfree, Martins anuncia apoio à One Thor. Foto: ReproduçãoOne Thor: prêmios de até US$ 1,2 milhão (R$ 2,68 milhão) para quem participar do negócio. Foto: ReproduçãoJanio Ariel (à direita), líder da Telexfree, com Carlos Costa, diretor da empresa. Foto: Reprodução/FacebookApós o bloqueio da Telexfree, Janio Ariel declara apoio à Luvre. Foto: ReproduçãoLuvre: prêmios incluem imóvel, viagens, carros e até um avião. Foto: Reprodução

Nova empresa apoiada por Pelé também é acusada de ser pirâmide

A BBom, o novo projeto de Pelé Reis, teve contas e atividades congeladas provisoriamente pela Justiça brasileira julho em 2013, também sob suspeita de ser pirâmide, após prometer lucro de 24.000% em cinco anos com a venda de assinaturas de rastreamento de veículos.

Com uma liberação parcial obtida em novembro passado, o dono da empresa, João Francisco de Paulo, previu lucros ainda maiores para quem entrasse no negócio.

“Nosso negócio é lícito, praticado sob os parâmetros legais, reconhecidamente pelo Poder Judiciário", afirma João Francisco de Paulo, em nota à reportagem. "Entendemos que é salutar, para a opinião pública, saber que o nosso negócio está atraindo, inclusive, aqueles que outrora mantinham práticas diversas, advindos de outras empresas.” 

Marketing multinível de árvores e palmitos

No mesmo evento em que Pelé Reis ganhou R$ 3,1 milhões, o divulgador Janio Ariel Castagno Santos levou R$ 3,9 milhões da Telexfree. Hoje, promove a Luvre, que atua no mercado de venda de palmito pupunha e madeira. Para captar "eco-empreendedores", expressão utilizada pelos participantes, a empresa divulga que eles podem ganhar bônus de até R$ 100 mil – por dia –, e prêmios que vão de viagens internacionais a um jatinho.

“Não é simples um vendedor (eco-empreendedor) alcançar esses prêmios. Ele tem que trabalhar muito, ou seja, efetuar estratégias de venda de produto que possam premiá-lo”, ressalta um porta-voz da Luvre, em nota.

Sobre a participação de Janio Ariel, a nota alega que o projeto não tem como bloquear “a entrada de profissionais do mercado, mesmo que eles venham de empresas que sofreram bloqueio por terem sido consideradas pirâmides financeiras”, e que a Luvre “possui um plano de marketing amparado em análises técnicas e jurídicas.”

Divulgação/Telexfree
Carlos Costa, um dos diretores da Telexfree, fala ao público em cruzeiro do negócio, em dezembro de 2013

Negócios incluem de moeda virtual a chás

José Marcus França Bonfim, que diz ter levado ao menos 57 mil pessoas para a Telexfree, agora atrai o público para a Paymony, de mineração de moedas virtuais – um concorrente do Bitcoin.

“Hoje daria uma média de US$ 1.250 (R$ 2,8 mil) por mês para você apenas deixar o seu computador seis horas apenas trabalhando todo dia”, explica França, em vídeo disponibilizado na internet.  Em bônus, a Paymony promete  pagar até US$ 25 mil, ou R$ 55,9 mil, por dia.

Procurado pelo iG, França disse que não queria se pronunciar e que processaria a reportagem. 

Misael Martins da Silva – que portava um cheque simbólico de R$ 2,9 milhões naquele evento da Telexfree – partiu para a One Thor. Baseada em Hong Kong, a empresa se apresenta como um marketing multinível de chás, colchões, serviços eletrônicos – entre outras coisas – e promete aos participantes prêmios de até US$ 1,2 milhão (R$ 2,7 milhão) em 12 meses.

“Nosso projeto é totalmente diferente da Telexfree, em que pese sermos uma empresa de marketing multinível”, informou a empresa, em nota. “A Telexfree não tinha um produto ‘viável’ (...). A One thor tem produtos físicos, que são entregues ao consumidor no momento da entrada deste em nossa rede de consumo.”

Pelé Reis, Misael Martins e Janio Ariel não responderam aos contatos feitos pela reportagem por e-mail e por meio de uma rede social. A Paymony e a Telexfree também não retornaram a mensagem enviada por e-mail.

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