Governador do Acre declara apoio à Telexfree, suspeita de pirâmide financeira

Às vésperas de decisão sobre processo contra a empresa, Tião Viana (PT) declarou que daria "testemunho" em favor à atividade em "qualquer tribunal"

Vitor Sorano - iG São Paulo |

Reprodução - 21.11.13
Governador do Acre, Tião Viana, declara apoio à Telexfree, suspeita de pirâmide financeira

O governador Tião Viana (PT), do Acre, saiu em defesa da Telexfree, acusada de ser uma pirâmide financeira com 1 milhão de associados no Brasil. As declarações foram dadas uma semana antes de o Judiciário decidir se manteria ou não o processo que pede a extinção do negócio, e o bloqueio de contas e atividades da empresa, determinado há 157 dias.

Viana, ex-presidente do Senado, disse ao diretor da Telexfree, Carlos Costa, que daria perante à Justiça “testemunho em favor dessa atividade”, segundo vídeo divulgado na quarta-feira (20) na página oficial da empresa em uma rede social. O encontro ocorreu na semana anterior, durante visita de Costa a Rio Branco.

“O que eu queria lhe dizer e que você [Carlos Costa] pode ter assim: ‘Olha, eu tenho, do governador do Acre, um testemunho a favor dessa atividade’", disse Viana a Carlos Costa. “E pode me usar em qualquer tribunal. Eu dizia o que eu lhe disse aqui, eu digo no STJ [Superior Tribunal de Justiça], eu digo em qualquer tribunal. Dou o testemunho. Porque eu não vi ninguém reclamar, como é que [alguém] vai ser contra?”

Viana vinha sendo acusado de ter sido o responsável pelas investigações contra a Telexfree, o que o governo nega.

O secretário de Comunicação do Estado do Acre, Leonildo Rosa, afirmou desconhecer a declaração de Viana, mas defendeu a possibilidade de o titular do Executivo fazer tais comentários.

"O governador tem as opiniões dele e, num Estado Democrático de Direito, tem o pleno direto de manifestar a opinião dele, como da mesma forma algumas pessoas têm direito de questionar a opinião dele", disse Rosa ao iG.

O secretário também afirmou que o assunto Telexfree mexe com "10% da população do Acre" e que, por isso, Costa foi recebido pelo governador.

"No entendimento do governador, esse é um assunto da Justiça, e o governador já falou várias vezes que ele não é contra [a Telexfree] porque ele entende que ninguém está sendo lesado até agora."

Críticas e ameaças

O Judiciário do Acre tem sido alvo de pesadas críticas por parte dos sócios e apoiadores da Telexfree desde que, em junho, determinou o bloqueio das contas e atividades da empresa em todo o Brasil. Responsável pela medida, a juíza Thaís Khalil, da 2ª Vara Cível, chegou a ser ameaçada de morte.

Deputados estaduais também têm feito desagravos à empresa. A Assembleia Legislativa do Acre fez uma sessão em apoio à Telexfree, no dia em que ocorreria uma audiência de conciliação presidida pela juíza. Segundo  o deputado Moisés Diniz (PCdoB), a empresa foi acusada de ser pirâmide porque "os bancos corriam risco de não ter mais dinheiro para financiar empreiteiras".

Em julho, o deputado Helder Paiva (PEN) já havia defendido a criação de uma comissão de parlamentares para visitar os magistrados do Tribunal de Justiça do Acre, após o bloqueio da empresa ser mantido por decisão do desembargador Samoel Evangelista.

As declarações de Viana se somaram ao coro a favor da Telexfree no momento em que a juíza Thaís Khalil se preparava para decidir se manteria o processo que pede a extinção da empresa e a devolução dos recursos os investidores. A ação foi movida pelo Ministério Público do Acre (MP-AC), que também foi responsável por solicitar o bloqueio provisório das contas e atividades.

Na última quinta-feira (21), a juíza Thaís manteve a ação. Agora, terá de decidir se aceita os pedidos do MP-AC e condena a Telexfree ou se inocenta a empresa e põe fim ao caso. Dificilmente esse julgamento ocorrerá ainda em 2013.

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Logotipos da Telexfree da Yonex BWF World Championships Paris 2010

Mudança de logotipo e de país

A ação contra a Telexfree atinge atualmente apenas as atividades da empresa no Brasil, onde ela foi fundada em 2010 com o nome de Ympactus Comercial. Seus proprietários, entretanto, buscam agora transferir a carteira de investidores captada no País para a Telexfree LLC, detida por eles nos Estados Unidos, e criada em 2002.

Em vídeo, o diretor da Telexfree no Brasil, Carlos Costa, disse que aceitaria pôr fim à Ympactus desde que os atuais contratos com a empresa pudessem ser ser cumpridos até o final e os associados, tivessem como alternativa “optar de participar na Telexfree americana.” O braço brasileiro também tenta transferir R$ 29 milhões para as contas nos EUA.

A Telexfree também anunciou que mudará a sua identidade visual. O anúncio foi feito no mesmo momento em que começou a circular na internet a comparação entre o atual logotipo da empresa e o de uma competição de badminton. Ambos são idênticos.

Procurada no início da noite, a Telexfree não comentou os fatos até a publicação desta reportagem.

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