Investimentos entre países dos Brics são escassos, aponta relatório da Unctad

Grupo formado por Brasil, Rússia, China e África do Sul responde por 9% do investimento estrangeiro mundial, mas aplica 2,5% do total no bloco

Vitor Sorano - iG São Paulo | - Atualizada às

Divulgação
Preparativos para a 5ª cúpula dos Brics, em Durban, na África do Sul


Juntos na sigla, os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) estão bastante separados quando se trata de apostar dinheiro um na economia do outro. De cada U$ 100 que esses cinco países têm aplicado no exterior, apenas US$ 2,5 estão nos demais membros do próprio grupo. O Brasil tem US$ 0,30 a cada US$ 100.

Os dados fazem parte de um estudo sobre o Investimento Estrangeiro Direto (IED) dos e nos Brics, divulgado nesta segunda-feira (25) pela Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento (Unctad).

Nas próximas terça-feira e quarta-feira (26 e 27), os chefes de Estado dos cinco países reúnem-se em Durban, na África do Sul. A expectativa é que o encontro ajude a turbinar os negócios dentro do bloco, que em 2030 abrigará três das quatro maiores economias do mundo, segundo projeção de janeiro da PricewaterhouseCoopers. 

Participação relevante

Os Brics já abrigam 20% de todo o fluxo de IED mundial – em 2000, essa proporção era de 6%, aponta o relatório da Unctad. Em 2012, esse volume atingiu US$ 263 bilhões, o triplo de dez anos antes. O Brasil foi o segundo maior destino, com 25% do total aplicado no grupo no ano. O bloco também se tornou um investidor mais expressivo: de 1% em 2000 (US$ 7 bilhões), o IED vindo de países dos Brics passou a representar 9% do fluxo total global (R$ 126 bilhões).

Destino

Distribuição do estoque de IED dos Brics em 2011 (em US$ milhões)

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Fonte: Unctad

O relacionamento intra-grupo, entretanto, é bem menos expressivo. No total, os Brics aplicaram nos Brics US$ 28,6 bilhões em 2011, 2,5% do IED total do grupo, ante 0,1% em 2003. Esse investimento estava concentrado na China, que abocanhou US$ 13,6 bilhões, quase a metade (47%). O Brasil, destino de 4,3% (US$ 1,2 bilhão), é o último da fila.

Fora a África do Sul, que em 2011 tinha 19,6% de seu estoque de IED em outros Brics, os demais países destinam parcelas inferiores a dois dígitos. Mesmo a China, que tinha 87% de seu IED em países em desenvolvimento em 2011 – acima da média de 52% dos Brics – aplicava 2,2% nos membros do grupo naquele ano. O Brasil e a Rússia dividiram a última posição, com 0,3%.

Segundo Masataka Fujita, chefe do braço de Tendências e Assuntos de Investimento da Unctad, os Brics tendem a investir mais em suas regiões, em centros financeiros offshore e nos países desenvolvidos. No caso brasileiro, a posição geográfica e a pequena tradição de investimento no exterior reforçam o descolamento do resto do grupo.

“O Brasil tem uma história recente [de IED] e não é estranho que esse recurso esteja localizado mais próximo dos países vizinhos. Se os brasileiros se tornarem mais investidores, irão (aplicar) mais longe do Brasil”, diz Fujita ao iG . “Compare com a China: está mais próxima da Rússia, da Índia e da África do Sul. O Brasil está mais distante de qualquer um desses países.”

Veja também: Fundo soberano da china aumentará investimento na Rússia

Origem

Estoque de IDE dos países dos Brics em outras economias do bloco em 2011 (em US$ milhões)

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Fonte: Unctad

Faltam acordos

Ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da Barral M Jorge Consultores Associados, Welber Barral lembra que o Brasil não possui acordos recíprocos de investimento com nenhum país. O consultor acredita que a próxima reunião dos chefes de Estado pode resultar em oportunidades para mais operações em moedas locais, mas se mostra cauteloso com a promessa de criação de uma instituição financeira comum para o bloco.

“A criação de um banco com essas características demanda tempo e uma série de ajustes técnicos.”

Veja também:  Brasil terá US$ 30 bilhões em crédito em moeda chinesa

Fujita é cético no que toca ao estreitamento das relações entre o Brasil e os demais membros do grupo – e dos Brics como um todo.

“Depende de o Brasil querer aumentar as relações com os demais membros, econômica e politicamente. No momento atual, não está muito claro se o Brasil quer ou não”, diz Fujita, que duvida também do real interesse do bloco em criar o prometido banco comum. “Neste momento eu não vejo nada disso.”

Crise oportuna

A crise econômica iniciada em 2008 foi uma importante oportunidade para que os Brics se tornassem destinos mais atrativos, segundo o estudo da Unctad. A queda no fluxo de investimento para esses países em 2009 foi menor do que no destinado aos países desenvolvidos – 30% e 40% respectivamente – e a retomada foi mais rápida.

A nova onda de incerteza na zona do euro lançada pela instabilidade econômica no Chipre, além da forma como a União Europeia tem lidado com a situação, devem ampliar essa janela para o países em desenvolvimento, avalia Marcus Vinícius de Freitas, coordenador do curso de relações internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap).

“Com certeza isso favorece os países que buscam implementar uma confiança maior no seu sistema de investimento, e de economias que oferecem maiores níveis de retorno”, diz.

Mas, enquanto o regime democrático e a existência de marcos regulatórios – algumas das premissas básicas para atrair investimento, segundo Freitas – ajudaram a tornar o Brasil um dos principais destinos do IED mundial, a burocracia e algumas mudanças nas regulações constituem obstáculos importantes, avalia.

“O que o impede o Brasil de receber mais são entraves burocráticos e algumas derrapagens legislativas ou em decisões [do governo]”, diz o professor da Faap, apontando para mudança no marco regulatório do pré-sal, de um regime de concessão para o de partilha. “Essa alteração faz com que as pessoas fiquem desconfiadas quanto à confiabilidade das instituições do futuro. Mas isso em teoria.”

O País também tem tido uma participação mais tímida do que o possível como investidor no exterior, avalia Barral.

“Quanto ao IDE brasileiro no exterior, seu crescimento tambem é importante, mas proporcionalmente inferior ao dos demais Brics, sobretudo China e Índia. Faltam incentivos, sobretudo tributários e de funding, para que o IED brasileiro cresça mais rapidamente.”

Com isso, o Brasil tem deixado passar outra oportunidade aberta pela crise econômica. Assim como tornou os emergentes mais interessante como destino, ela também barateou ativos empresariais em outros países, o que poderia ter sido aproveitado pelos brasileiros para ampliar a internacionalização de seus negócios.

“Seria um momento importante para as empresas brasileiras no sentido de melhor integrar sua cadeia de suprimentos”, diz Freitas. A compra da americana Heinz pela brasileira 3G Capital em parceria com a Berkshire Hathaway, também dos EUA, foi “algo pequeno”, avalia ele. “Os produtores de café do Brasil deveriam ter comprado as empresas alemãs que são as maiores exportadoras de café do mundo.”

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