Moradores de favelas do País têm renda de R$ 56 bilhões por ano, diz estudo

Por iG São Paulo * | - Atualizada às

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Comunidades teriam 12 milhões de pessoas, das quais 65% já pertencem à classe média

Raphael Gomide
Rua da Rocinha (RJ): nicho ainda é pouco explorado devido ao preconceito, diz pesquisador

Os moradores das favelas brasileiras ganham cerca de R$ 56 bilhões por ano, pouco menos que o Produto Interno Bruto (PIB) da Bolívia. A pesquisa foi feita pelo Data Favela, uma parceria do instituto Data Popular com a Central Única de Favelas (Cufa), e divulgada nesta quarta-feira.

De acordo com o estudo, feito a partir de entrevistas e do cruzamento de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) com os da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), o consumo popular triplicou nos últimos dez anos.

No entanto, apesar do potencial de consumo de uma população de cerca de 12 milhões de pessoas, esse nicho de mercado ainda é pouco explorado devido ao preconceito, segundo o diretor do Data Popular, Renato Meirelles.

“O morador de favela não quer sair da favela, ele quer capitalizar isso nas marcas que usa. Esse era um mercado invisível, pois estava debaixo dos nossos narizes, mas as pessoas só enxergavam a favela pela ótica da violência e do tráfico”, disse Meirelles.

Segundo ele, dois terços dos moradores de favelas do país pertencem à metade mais rica do mundo. Isso porque a classe C (ou classe média) cresceu mais nas comunidades das metrópoles do que no interior do país. Nos últimos dez anos, a parcela de moradores de favelas que pertenciam à classe baixa caiu de 60% para 32%, enquanto aquela considerada classe média subiu de 37% para 65%.

O governo brasileiro considera classe média pessoas com renda familiar per capta (ou por indivíduo) entre R$ 291 e R$ 1.019 ao ano. Segundo essa classificação, o País tem atualmente mais de 100 milhões de pessoas na classe média.

O dono da empresa Vai Voando, Tomas Rabe, é um dos empresários que apostaram no consumidor de baixa renda e hoje não se arrepende. Com cerca de 70 lojas de vendas de passagens áreas somente em favelas, sobretudo do Rio e São Paulo, a empresa, criada há pouco mais de dois anos, tem planos de abrir mais 50 lojas este ano, apenas no Rio de Janeiro.

“Este mercado é invisível para quem não está atento”, disse o empresário. Segundo ele, menos de três anos depois, a empresa está embarcando uma média de 3 mil passageiros por mês, com 43 mil passageiros embarcados até hoje.

Rabe explicou que, uma vez rompido o preconceito, é importante entender esse público e se adequar aos hábitos de consumo e à realidade dessa população. “A maioria não usa cartão de crédito e muitos não têm nem conta em banco. Então, nossa forma de pagamento é por boleto pré-pago”, explicou ele.

Segundo o estudo, 69% dessas populações utilizam dinheiro como forma de pagamento, 9% usam cartão de crédito de terceiros e 10%, cartão de crédito próprio. Além disso, cerca de 69% dos moradores de comunidades vão ao shopping toda a semana e 50% comem fora semanalmente. Nos próximos 12 meses, 49% pretendem comprar móveis; 36%, querem um novo eletrodoméstico; e 24% pretendem contratar serviços de TV por assinatura.

O empresário Elias Targilene é outro exemplo de sucesso entre os que investiram nas classes C, D e E. Com cinco shoppings populares construídos em um período de três anos, ele pretende lançar daqui a três meses o primeiro shopping do Brasil dentro de uma favela, no Complexo do Alemão, zona norte do Rio.

“Não podemos mais falar que ser popular é ser feio, sujo, fedido e desorganizado. Hoje, somos uma nação rica e ser pop hoje significa ter serviço, ser bonito, atender bem”, declarou o empresário.


* Com Agência Brasil

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