Argentinos especulam com real e cotação no paralelo dispara 25%

Nesta quarta-feira, o real estava cotado a 2,42 pesos no câmbio oficial, mas já passava de 3 pesos no chamado “blue market”

Brasil Econômico - Flávia Furlan |

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Turistas que caminham pela Calle Florida, a principal rua comercial de Buenos Aires, são tentados inúmeras vezes a trocar seus dólares por pesos argentinos, cenário de uma economia em que a população procura fazer reserva de valor em moeda estrangeira, pela falta de confiança no câmbio local, e vê nos visitantes uma das principais fontes para isso. O que mudou no último ano é que o real também passou a ser desejado no país vizinho, diante de medidas restritivas para a aquisição da moeda americana.

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Câmbio da Argentina: população do país já faz sua poupança em moeda estrangeira

Embora a cotação oficial não reflita essa maior procura pelo real, devido ao controle exercido pelo governo sobre a moeda local, o câmbio informal, chamado de ‘blue market’, se encarrega deste papel. Nele, o real é encontrado a uma cotação 25% maior do que no mercado formal. Ontem, R$ 1 equivalia a 2,432 pesos argentinos, mas poderia ser encontrado a algo superior a 3 pesos no paralelo. Já o dólar, cuja cotação oficial apurada no Banco Central era de 4,962 pesos argentinos, poderia ser vendido por 6,50 pesos.

A procura pelo real foi incentivada após medidas restritivas tomadas pelo governo argentino para aquisição de dólares no país, com receio de fuga das divisas em um momento em que os estoques estão baixos. “Quando o país tem dificuldade em manter um volume adequado de reservas, de acordo com a necessidade de importação, limita a compra de divisas”, aponta o professor de economia internacional da PUC, Antonio Carlos Alves dos Santos.

Entre as medidas adotadas, em outubro de 2011, o governo obrigou os argentinos que queriam comprar outras divisas a pedir autorização prévia à Receita Federal local. Já em abril de 2012, eles foram proibidos de usar cartões de débito no exterior para sacar moeda estrangeira de sua conta em pesos. O saque deve ser feito de uma conta em dólar. “Na medida em que o governo cerceia a aquisição de dólar, é natural que o argentino procure o real, moeda de um país próximo”, diz Sidnei Nehme, diretor da NGO Corretora de Câmbio.

Além disso, o real é a moeda da sétima maior economia do mundo e está relativamente estável frente ao dólar. “A economia mais desenvolvida perto da Argentina somos nós, um dos principais parceiros comerciais, então o real, embora não seja moeda conversível livremente naquele país, acaba sendo usado inclusive informalmente”, conta Marcos Forgione, diretor de operações da Broker Brasil.

Uma das formas informais é a aceitação pelo comércio varejista. O brasileiro Emerson Chiamarelli, de 41 anos, passou cinco dias no mês de dezembro em Buenos Aires e confessa que foi incentivado diversas vezes, pelos próprios comerciantes, a pagar com moeda estrangeira. “O valor do dólar era de seis pesos, enquanto a cotação oficial era de 4,90 pesos”, conta.

O efeito desta procura maior pelo real no mercado paralelo é pouco sentido na economia brasileira, mas para os argentinos prejudica a situação já complicada do país. “Perde-se a referência de valor”, afirma Fabiano Rufato, diretor de câmbio do Grupo Fitta. “Gera um ambiente instável, os preços internos podem disparar.”

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