"Cota não é sinônimo de incompetência"

Para Irene Natividad, presidente da Corporate Women Directors International, cotas são uma chave para que mulheres tenham acesso aos conselhos de administração das empresas, área praticamente fechadas a elas

Cristiane Barbieri - iG São Paulo | - Atualizada às

Divulgação
Irene Natividad: "as empresas dizem que apoiam as mulheres mas, quando se olha os números, elas não estão lá"

Nascida nas Filipinas, Irene Natividad, 63, está à frente do instituto de pesquisa Corporate Women Directors International (CWDI) que pesquisa e divulga a desigualdade de gênero no comando das grandes corporações.  "As empresas dizem que apoiam as mulheres e têm uma vice-presidente de qualquer coisa", diz Irene. "Mas quando se compara os números [entre homens e mulheres em cargos de liderança], como os que mostramos em nossas pesquisas, é fácil de perceber que elas não estão lá. Com essas pesquisas, quero dar instrumentos e vontade de mudar."

Leia: Só 5,4% das maiores empresas do País têm mulheres em seus conselhos de administração

Para ela, cotas são apenas a chave para abrir uma porta fechada às mulheres, num cenário que, de outra maneira, levará muito tempo para mudar. A aprovação do projeto de lei que pretende colocar conselheiras nas estatais brasileiras, afirma, pode formar um grupo que será aproveitado e crescerá também no setor privado.

Irene esteve na semana passada no Brasil, divulgado a segunda pesquisa sobre a participação de mulheres nos conselhos das maiores empresas feita na América Latina. Com outras líderes, abriu o pregão de quinta-feira, 18, na BM&FBovespa. E, à noite, esteve ao lado de Regina Nunes, presidente da Standard & Poor's, Andrea Weichert, sócia da Ernst&Young e Marie-Laure Charles, diretora-geral do grupo Eca no Brasil, num seminário realizado na FAAP, em São Paulo, sobre o tema. Pouco antes do seminário, ela recebeu o iG para a seguinte entrevista:


iG - Apesar de ter enfrentado uma forte reação inicial contra a política de cotas, a Noruega foi muito bem sucedida quando conseguiu a aprovação da lei que obrigava as empresas a terem mais mulheres nos conselhos. Isso aconteceu apenas porque a Noruega tem um alto nível educacional e social?

Irene Natividad -  O fato de a Noruega ter sido tão bem sucedida permitiu que outros países pudessem adotar o mesmo modelo de política de cotas. A Malásia, um país completamente diferente da Noruega, também passou sua lei de cotas e foi bem sucedida. Não é uma questão de supremacia escandinava. Há muitas mulheres educadas, talentosas, experientes em todos os países do mundo que ainda têm de ser convidadas a serem líderes corporativas. 

Leia: 'Sucesso' norueguês inspira Europa a adotar cotas para mulheres em empresas


iG - E por que não deixar que as mulheres conquistem sua participação nos conselhos das empresas com o tempo, em vez de propor cotas?

Irene Natividad - Desculpe!!!!! Faço isso há 30 anos e olhe onde estamos!!!!! Estamos comandando? Não. Em nenhum país do mundo!!! Há um longo tempo atrás dissemos: "se pudéssemos ter mais mulheres educadas e colocá-las na força de trabalho, elas naturalmente chegariam aos postos de comando". Mas não aconteceu!!!


iG - Por que?

Irene Natividad - Por muitas razões. A principal é a integração no trabalho. As mulheres tomam toda a responsabilidade para si porque é de sua natureza. Elas têm a percepção de que são as únicas donas das famílias. Esse é um problema global que nenhum país - nem a Noruega - resolveu. É uma grande barreira. Outro ponto é que a maioria das mulheres não é promovida e elas desistem. É difícil ficar batendo sua cabeça contra o teto, então elas desistem e vão empreender. É por isso que o percentual de mulheres abrindo suas próprias empresas está crescendo em muitos países do mundo.


iG - As mulheres são menos ambiciosas?

Irene Natividad  - Há um estudo que mostra que homens e mulheres, aos 20 anos de idade, têm a mesma ambição. Quando chegam aos 30, quando elas já têm família ou estão começando a planejá-la, elas diminuem seus sonhos. Ou batem no teto. Ou trabalham para um chefe que não as encoraja. Qualquer que seja a razão, elas começam a diminuir sua ambição. E, a menos que elas sejam orientadas, dificilmente elas acontecem. 


iG - Uma reportagem publicada pelo jornal Financial Times em cima de um relatório da consultoria McKinsey apontou que as mulheres são tão ambiciosas quanto os homens, mas que elas não gostam de se envolver na política empresarial para chegar aos conselhos. A senhora concorda?

Irene Natividad - As mulheres não estão lá para saber se se gostam ou não de politicagem!!! Muitos homens também não gostam da política em seus empregos, mas eles são escolhidos para estar no comando.


iG - O Brasil tem um dos menores índices de participação de mulheres nos conselhos de administração das empresas da América Latina, que tem o pior índice entre os continentes nos quais a CWDI pesquisou . Como isso pode mudar?

Irene Natividad - O projeto de lei que está tramitando no Senado, que prevê cotas para mulheres em estatais, é um bom começo. As estatais neste País são muito grandes, muito poderosas e muito valiosas em termos de valor de mercado. Espero que essa iniciativa destaque uma série de mulheres que, mais tarde, possam ser aproveitadas pelas empresas de capital aberto. Cotas não são sinônimo de incompetência. São apenas uma chave e precisamos desta chave para entrar neste mercado tão fechado. De outro modo, não vai acontecer. Se esperamos que as mulheres cheguem naturalmente ao topo, estarei morta e nada acontecerá! Ao contrário dos homens, as mulheres esperam que alguém note como elas são boas e trabalham duro. É por isso que precisamos de orientadores. 

iG - A presidente Dilma deveria ter um papel mais ativo nesta proposta?

Irene Natividad - Não sei se isso é apropriado para ela. Mas ela é comprometida com a diversidade de gênero, indicou muitas mulheres para seu governo e ela mesma é um bom exemplo de liderança. Tenho certeza de que quando a proposta do Senado chegar à mesa dela, ela assinará. 

iG - Há, então, muita testosterona nos conselhos de administração?

Irene Natividad - Não sei se há muita testosterona porque muitos desses conselheiros são muito velhos... (risos) mas, falando sério, ainda há muitos homens nos conselhos. Eles são a absoluta maioria: 94,6% das 100 maiores empresas da América Latina. Um levantamento da Ernst & Young mostra que o mandato médio é de 10 anos, o que significa que eles estão lá há muito tempo. Renovar um conselho não acontece da maneira rápida e abrir espaço para as mulheres é muito difícil. Não sei se é testosterona, mas sei que há muito hormônio masculino por lá.

iG - Se houvesse mais mulheres nos conselhos, a crise econômica seria menor?

Irene Natividad - "Se o Lehman Brothers fosse Lehman Sisters não estaríamos nesta crise". Essa frase ficou muito famosa por ter sido dita num Fórum Econômico Mundial por um homem. O fato é que mulheres tomam menos riscos com o dinheiro de outras pessoas. Essa crise aconteceu porque um punhado de homens criou produtos financeiros que ninguém entendia. Eles vendiam ar porque não havia nada sob eles. Não acredito que isso fosse o tipo de coisa que mulheres necessariamente fariam porque elas costumam ser mais conservadoras e cuidadosas com relação a dinheiro. Na Bolsa de Istambul, 50% das corretoras são mulheres. Eu estive lá abrindo um pregão exatamente por conta disso e, conversando com o presidente do conselho da Bolsa, sobre um estudo que falava exatamente sobre o excesso de testosterona que havia em Wall Street, ele afirmou que gostaria de que as operadoras de Istambul tivessem um pouco mais desse hormônio porque elas são muito cuidadosas com dinheiro.

 

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