Em Paris, Mantega diz que Brasil conterá a alta do real

Governo brasileiro teme nova valorização excessiva após o Fed, Banco Central dos EUA, anunciar US$ 40 bilhões por mês para a compra de títulos de dívida ligados a hipotecas

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Marcelo Camargo/ABr
Ministro Mantega volta a usar termo "tsunami" para classificar a compra de títulos nos EUA

O governo brasileiro vai continuar intervindo nos mercados de câmbio para conter a eventual alta do real frente ao dólar, motivada pelo novo programa de estímulo à economia anunciado pelo Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA). A advertência foi feita pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, durante encontro bilateral com Pierre Moscovici, ministro da Economia da França, nesta terça-feira, em Paris. A decisão de impedir limitar a flutuação da divisa, justifica o brasileiro, visa a reduzir o impacto da desvalorização da moeda americana nos mercados emergentes, inundados por bens importados.

O encontro foi o primeiro da agenda oficial de Mantega em Paris e aconteceu no final da manhã, em Bercy, sede do Ministério da Economia francês. Na saída do encontro, que teve duração de pouco menos de uma hora, os dois ministros concederam rápida entrevista coletiva. Moscovici enumerou os temas discutidos, mencionando a crise europeia, a atuação conjunta nos fóruns internacionais, como o G-20, a reforma das instituições multilaterais - a exemplo do Fundo Monetário Internacional (FMI) - e as relações bilaterais.

Então, questionado pelo Grupo Estado, Moscovici reconheceu ter discutido o "tsunami" de liquidez. O ministro foi moderado em sua análise e não empregou o termo "guerra cambial" - apenas citou o termo utilizado pelo brasileiro. "Nós pensamos que é um tema real e que precisa ser tratado nas instâncias multilaterais, como o G-20", respondeu, sem citar os Estados Unidos.

Mantega, por sua vez, não economizou nas críticas. O ministro vem reclamando nos últimos dias da decisão do Fed de injetar cerca de US$ 40 bilhões por mês no mercado americano sob o pretexto de comprar títulos hipotecários para reduzir as taxas de juros. De acordo com Mantega, a "terceira rodada" de medidas de "flexibilização monetária" - ou quantitative easing 3 (QE3) - "não resolve muito os problemas dos Estados Unidos e provoca muitos problemas nos países emergentes". "Nós temos muitas reservas em dólar e logo perdemos muito dinheiro quando a moeda se desvaloriza", argumentou.

Para o ministro, "os Estados Unidos precisam resolver o problema de seu mercado imobiliário e fazer mais estímulo fiscal, e não tanto monetário". "Eles já fizeram muito estímulo monetário", alegou. Mantega ponderou ainda que a desvalorização do dólar prejudica o mercado interno do Brasil pela chegada de bens importados, "em parte porque as moedas são manipuladas por outros países". Então Mantega lançou uma advertência. "Nós continuaremos a tomar medidas para manter o real desvalorizado", disse, sem, no entanto, fixar um piso para o dólar.

Mantega insinuou ainda que as medidas adotadas pelo Fed têm relações com a campanha eleitoral que opõe o atual presidente, o democrata Barack Obama, ao republicano Mitt Romney na corrida à Casa Branca. "Eu sei que eles estão com problemas políticos neste momento. Talvez após as eleições eles mudem essa estratégia", afirmou, referindo-se ao pleito de 6 de novembro.

Moscovici foi mais moderado também nesse ponto, mas foi o primeiro a afirmar que a "flexibilização" proposta pelo Fed "talvez vá se apresentar de uma maneira diferente após as eleições americanas".

Mantega faz em Paris a primeira escala de sua passagem pela Europa, que incluirá Londres em seu roteiro.


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